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Mentiras e Flores – Onde viver é um verbo sem passado
Sobre o romance de Mia Couto, Venenos de Deus, remédios do Diabo: as incuráveis vidas de Vila Cacimba. São Paulo: Cia das Letras, 2008. 188 p.
Florence Dravet*
Primeiro, há a poesia de dentro de cada personagem que o narrador nos apresenta com uma simplicidade terminantemente profunda; profunda e enevoada como a Vila Cacimba. A mesma poesia que permeia os personagens permeia todo o texto de Mia Couto, que sabe misturar como ninguém os dizeres da profundidade existencial com os dizeres de aparente ingenuidade metafórica do linguajar moçambicano – uma ingenuidade, vale a pena reiterar, apenas aparente, porque deveras capaz de revelar não-ditos. Assim, na primeira frase do livro, é nestes termos que o português adentra a África: “O médico Sidónio Rosa encolhe-se para vencer a porta, com respeitos de quem estivesse penetrando um ventre”.
Vila Cacimba! Em português moçambicano, cacimba (ou kasimba) é um nevoeiro úmido que se forma em certas regiões do litoral africano. E aí reside a principal metáfora do livro: a África de Mia Couto, essa terra onde “os homens, por vezes, não são mais que nuvens”. Tanto faz se português, tanto faz se negro ou mulato, naquele cenário do vazio, ninguém é dono de nada. As vias públicas de Vila Cacimba são, na verdade, “espaços de intimidades expostas” e pisá-las é pisar em “territórios sagrados, devassando intimidades familiares”. Mas isso, Sidónio Rosa, recém-chegado de Portugal, não o sabe. Por mais que tenha se mostrado, desde o princípio, respeitoso com o continente, aos poucos, percebe-se que a África não é seu lugar “No fundo, o português não era uma pessoa, ele era uma raça que caminhava, solitária, nos atalhos de uma vila africana”. E quando ele parte para sempre, Sidónio descobre que, talvez, apenas naquele instante esteja chegando de fato à África.
Assim como não conhece os mistérios do continente negro, o médico também não sabe bem quem é Deolinda, a mulata por quem se apaixonou em Lisboa e que veio procurar em Vila Cacimba, sob o pretexto de curar o vilarejo de uma epidemia. Mas será essa epidemia doença ou maldição?
“Acho que é maldição”, diz a mulata Dona Munda. “Isso não existe, Dona Munda, as doenças possuem causas objectivas”, responde o português. “Para o médico, aquilo era um hospital-tenda, um lugar de higiene e assepsia. Para os habitantes da Vila, a enfermaria era uma residência de maus espíritos, um lugar fatalmente contaminado.” Ao longo de todo o romance, visões de mundo se confrontam sem, porém, se afrontarem.
A verdade é que, em Vila Cacimba, não há verdade senão histórias, versões e mais versões de histórias que se modificam com os dias, com as horas, e de acordo com a conveniência passageira de seus relatores. A mãe – ou será a irmã? – de Deolinda, Dona Munda Sozinho, enraivecida contra o marido não se sabe exatamente por que motivo, é também a feiticeira, aquela que o marido teme e rejeita pelos seus poderes de curar, envenenar, ludibriar. O pai de Deolinda – ou será o amante? O violentador? O cunhado? – Bartolomeu Sozinho, ex-mecânico de um Transatlântico, é agora o velho filósofo que luta contra uma vida sem remédio, nunca pára de enjoar o navio, está sempre a bailar com o mundo, mas está doente: “eu e a casa sofremos de uma mesma doença: saudades”. Saudades de Deolinda... Aquela que todos esperam, que todos procuram; aquela cujas cartas chegam misteriosamente por mensageiros invisíveis. “Em África, todos são familiares”, explica Dona Munda, as notícias chegam e se espalham.
Logo no seu primeiro dia em Vila Cacimba, a busca do Doutoro Sidonho – como é chamado pelos habitantes – por Deolinda se transforma na busca pela cura do velho Bartolomeu, trancafiado em seu quarto escuro. Mas qual pode ser o remédio para aquele que diz “só melhoro quando deixar de ser eu”? Será a morte envenenada? O amor? A Aids que assola o país? O reencontro com a filha? E se for, quem é de fato sua filha?
Essa busca pela cura, numa cidade onde os habitantes tornam-se “tresandarilhos” porque vivem balançando os braços feitos loucos prestes a voar, o médico não a alcançará. Logo porque, nesse universo sem verdade, o português também se revela mentiroso, ele é um falso médico, nunca concluiu seu curso e não possui diploma. Mas, para Dona Munda e Bartolomeu, isso não importa. O “Doutoro” nunca vai deixar de ser médico, embora um médico que, como todo mundo naquela terra, “mente para viver”. Doutoro Sidonho, se entendesse que é também um pouco feiticeiro, talvez devolvesse Deolinda ao casal embrutecido pela falta de amor.
Será Deolinda, a invisível, – sucessivamente, Deolinda viva, Deolinda desaparecida, Deolinda morta – a metáfora do amor? Deolinda, que é a um só tempo filha, irmã, amante, semente e fruto do afeto e do desejo de todos os personagens, será o amor impossível que todos buscam para justificar suas existências, naquele lugar onde o verbo viver não tem passado? Onde só os estrangeiros são capazes de enterrar seus mortos em charcos? Sim, porque na África se os mortos se perdem em cursos de água subterrânea, eles “enlouquecem e nunca mais encontram o caminho de regresso a casa”.
Afinal, quem é Deolinda? E, se está morta, onde fica sua campa? “A resposta borboleteia sem pouso: a pessoa que amamos está enterrada em todos os lados. O mesmo é dizer: não desce nunca à terra”. Talvez, o único remédio sejam, então, as flores brancas do esquecimento, as flores do delírio, os “beijos-de-mulata” carregados pela esquálida moça de vestido cinza que, ao final do livro, aparece numa visão perturbadora no apeadeiro do cemitério.
Nesse romance carregado de imagens poéticas, Mia Couto nos oferece uma reflexão sobre a complexidade das relações entre negros, mulatos e brancos, entre visões de mundo incompatíveis numa África doente, onde o amor desaparece e reaparece, sempre a atormentar os vivos; os incuráveis vivos.
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* Florence Dravet é poeta. |