Poesias

por Edmundo Dantas*

NOVAS DESCOBERTAS

Ouvir aromas e ver vozes.

Tocar serviços e ouvir mudanças.

Ver ruídos, enxergar barulhos.

Cheirar idéias.

Exercitar o sotaque dos bichos.

Buscar cansaços nas pedras.

Do chão, tirar vertigens.

Do céu, armadilhas.

Do ar, lascas de vidro.

Do fogo, arbítrio.

Da água, úlceras de luz.



CONSTATAÇÕES

Os bichos têm arestas.

As folhas trazem um verde com arritmia.

O coração apara as pontas, que é pra mode negar más entranças.

Criançarei no universo.

Adolescerei no espaço minúsculo das relíquias.

 

 





ENCANTO

Sabiás-do-campo trazem sempre muitos acentos.

Cantam no inglês dos tico-ticos, no mandarim dos joões-de-barro, no farsi das maritacas.

Mas também sabem cantar em brasileiro. É quando mais me encantam. Sobem no ponto mais alto dos postes e derramam seu passarinhês de sotaque brasileiro. Nesses momentos, as samambaias tremem, os antúrios suspiram, as palmeiras resfolegam, as amoreiras soluçam.

Os sabiás-do-campo são sábios. Fazem a gente sempre pensar neles. Acho que é porque eles sacolejam as nossas almas. Bichinhos danados! Já pensam até em montar uma escolinha de alemão.



FAZENDA

Todos os dias, mais ou menos no horário em que o sol faz a sesta, os rios descansam sob a sombra das árvores. Nesses momentos de grande intensidade, em que pese aparentes desacontecimentos, os pássaros se exercitam nos trapézios, as lebres fazem tricô, as cobras desejam pernas. Bois e vacas, enfarados, ruminam chicletes. Os cavalos e as éguas pisam no freio.

É assim, exatamente, que as coisas desacontecem.

Sob a sesta do sol, o mundo se traveste em minúsculos carnavais. As lesmas escrevem seus nomes com sua caligrafia de gosma, as minhocas espreguiçam sob a terra, os morcegos regurgitam o guincho. Ninguém quase que não vê isso tudo. É pura conspiração, pura inconfidência. São ordens da Natureza ao avesso. Coisa de carrapatos, formigas, grilos e marimbondos.


A PRAÇA

As rosas carregam os olhares das manhãs. Na praça, uma araucária faz charminho. Uma árvore, sentindo-se abandonada, derrama suas folhas e rosna para mim. Nada que não possa ser consertado: faço um carinho nela e ela dá saltinhos de felicidade.

As águas ensaiam um “Quebra-Nozes” em cicio. Vão e vêm, vão e vêm, sibilantes na sonolência do acaso.

Um homem desafia borboletas, mas é logo instigado a contar formigas. Estas, por sua vez, não estão nem aí, entretidas em transportar uma perninha de louva-a-deus pra debaixo de uma palmeira com Alzheimer.

O rio mostra a língua, faz pum bem na cara dos coçadores de saco que desabafam seu não-fazer.

Todo mundo passa, até boi e boiada, naquela rua logo ali em frente, com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes e malcheirosas fezes de cachorro.

Assim se passa mais um xis na folhinha do Sagrado Coração. Arranco a folha, rezo a oração do dia e faço pose de jogador de basquete: arremesso e... cesta!

A certeza das incertezas é tanta e tão presente que ali, sentado no banco de madeira, começo a catar as minhocas de minha cabeça. Penso demais, até que o mundo me manda um perdigoto. Que cheira ao cocô de uma rolinha pendurada no fio: “Fogo pagô! Fogo pagô!”

É sempre assim em minha praça, em meus lugares, debaixo dos meus colchões da infância, tudo escondido no antro mais recôndito da cachola.

Digo amém e que assim seja etecétera e tal, um barulho ensurdecedor traz a propaganda de uma casa de móveis, a voz de lata do locutor amarrada à garupa de uma moto azul-marinho.

O espaço é assim. As margaridas, as dálias e as gérberas disputam o espaço com o escapamento dos carros e tentam oxigenar com seu perfume inexistente, o brejão da corrutela. Numa açucena fora de cenário, saracura diz que não. Meu coração só diz sim naquela praça.


AVOARES

Diz que quando os bichos falavam, os homens avoavam. Não precisava, portanto, de avião (o que deve ter gerado grande desemprego no setor de aviação. Mas estes são detalhes econômicos, que não vêm ao causo).

Os homens avoarem era uma coisa muito importante. A gente olhava pro céu e via aquele montão de gente avoando. Parecia uma esquadrilha de anjos.

Até que um dia, Deus acordou de ovo atravessado, assinou um decreto num papel feito de nuvem, calou os animais e deu voz de Torre de Babel a cada um deles.

Os homens ficaram cabreiros e, por via das dúvidas, para não pisarem nos sensíveis calos do Criador, arresolveram não avoar mais.

Achei uma sábia decisão, pois, se assim não fosse, Santos Dumont passaria pela terra (sem trocadilhos) em brancas nuvens, não teria inventado o avião e o Brasil não seria o berço do Pai da Aviação. Não existiria helicóptero nem foguete, muito menos comissários de bordo e aeromoças.

Em compensação, desenvolvemos o sonho. E assim, mesmo sem asas, continuamos a avoar.

 

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* Edmundo Danatas é poeta.

 

 
 

 

 
 
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