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Poesias: Lauro Maia Marques*
O Homem Tolo
O homem tolo construiu castelos de gelo
no verão, onde pensou em morar
por muitos anos
e rimou palavras a esmo
para surdos-mudos e
analfabetos
numa língua morta e
desconhecida
desde então.
O homem tolo saiu à noite com uma lanterna
apagada
procurando pela escuridão
e só encontrou a si mesmo.
Esse homem tolo
abriu as janelas de sua alma
numa rua deserta e no lugar de inspirar,
expirou ali mesmo.
***
Segunda Canção do Homem Tolo
Escuta o barulho do mar
Longe silente
E vê o pêlo ouriçar
Tu que não sentes
Enche o peito de ar
(Até um grito estourar)
Por entre os dentes
E gira em teu calcanhar
Tolo contente
Até o dia sangrar
Novo poente
E bebe o vinho dormente
E bebe o vinho dormente
***
Arabesques
Aquele salto que nós nunca demos
(Juntos, a sua boca em "O")
Restos de mim nos outros
Ondas na praia
Revolvendo os restos
Uma tampa de vaso sanitário, ainda aberta
(Quer dizer algo?)
Uma botina de pescador
(Outra de menina, cor-de-rosa, singular)
Vários panos sujos enrolados, uns nos outros, algumas roupas
Um pedaço de pneu velho queimado
A lua em quarto minguante, cheia quando a gente chegou
E foi ontem
Coisas que vieram de longe, de outro lugar
Unicamente para compor este poema ou qualquer outro
Quem os apanhou primeiro?
Uma criança correndo com um peixe nas mãos
"ACHADO MORTO"
E nu
Dois pares de meia e um cigarro
(Eu não fumo)
Lanternas mágicas
Roedores noturnos
Os cabelos soltos pela manhã,
O som da obra serrando aço (alto e)
(Forte:) pilhas novas para o rádio
Urgente como o dia e a noite
Tudo é recomeço
Minha língua sorvendo o asfalto junto com o café quente
Você e o resto do mundo caminhando ao meu lado em silêncio
E a novidade que é tudo isso
Num tempo em que eu ainda ignoro
Tão completamente quanto este arabesco.
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* Lauro Marques é poeta.
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