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Pensar o Invisível
Tobie Nathan *
Todas as sociedades humanas se interrogaram sobre a presença de seres inanimados que vivem nos limites dos mundos habitados: elfos, espíritos, demônios, djin... Ao longo dos séculos e através das civilizações acumularam-se conhecimentos sobre esses seres. Quem são? Onde vivem? O que querem com os humanos?
Tobie Nathan explica aqui que tais seres são uma sorte de conceitos encarnados, e que nos dão lições de alteridade.
Em um momento onde as civilizações se confrontam e se desafiam, a lição de uma ecologia do invisível pode ter até repercussões políticas.
Na minha percepção das coisas, não estou nada convencido de que tenha tido alguma civilização dos espíritos. Penso que eles sempre estiveram presentes. Que foi uma maneira natural de entrar em relação com o mundo, em uma relação de conhecimento. Ou seja, os espíritos, se fosse necessário dizer isso de maneira moderna, poderíamos dizer que são conceitos. Só que seriam conceitos que têm uma vida autônoma. Nós hoje pensamos que os conceitos são fabricados por nós, mas não acredito em nada disso. Penso que há uma autonomia dos conceitos, eles têm vida própria quando, na verdade, os descobrimos.
Aliás isso ficou no pensamento científico. Dizemos que descobrimos algo, ou seja, esse algo existia antes. Sim porque há uma questão que percorre todo o pensamento científico, a questão é: antes da descoberta dos micróbios, por exemplo, os micróbios existiam ou não? Antes de Pasteur, os micróbios existiam ou não? Do ponto de vista do conceito, eles não existiam. A humanidade viveu até aquele momento, sem saber que existiam os micróbios, portanto, para o universo humano, eles não existiam. Mas na verdade já existiam, já tinham sua eficácia, seu funcionamento, eram autônomos. E então, eles foram descobertos, foram construídos e essa construção os fez existir.
É mais ou menos isso os espíritos. São coisas que existem, que possuem uma autonomia, que têm um impacto sobre nós, mas que nós desconhecemos. E é por ocasião de falhas nesta relação entre o mundo dos espíritos e o mundo dos humanos, falhas que podem ser muitas vezes as doenças, os males, é por ocasião dessas falhas que as coisas se entreabrem entre os dois universos e a partir daí, somos obrigados a descobri-los e a construí-los. E todos os rituais que são descritos, que são lógicas de rituais porque na verdade há uma infinidade de rituais desse tipo, todos esses rituais são modalidades de fabricação de conceitos. Por que é que os conceitos não recobriram totalmente o mundo dos espíritos? Porque há várias áreas, e há algumas áreas para as quais os conceitos não conseguem responder às questões que nós nos colocamos; eles são ineficientes, o conhecimento conceitual às vezes é ineficiente e fica mais interessante pensar as coisas a partir dos espíritos.
Estou persuadido de que não são as pessoas que pensam, são os povos, são grupos que pensam, ou são seres que pensam. Os humanos não pensam; é muito raro um humano pensar e quando isso acontece isso é logo tornado público; então são os grupos que pensam e o pensamento dos grupos se manifesta em sua língua. Se você perguntar quem inventou a língua francesa, ninguém pode responder, ninguém inventou a língua francesa, todos os locutores de francês inventam todos os dias a língua francesa; e os locutores de francês não são somente os franceses, são os senegaleses, os maleses, os polinésios, e todos esses povos inventam em conjunto coisas que são cheias de achados; é um povo que pensa, não é nem um povo só, é um coletivo de pessoas que são unidas por alguma coisa que está pensando e que fabrica um objeto de uma complexidade incrível, que é a língua e que é um objeto essencial. Penso então que é assim que funciona o pensamento. E para o conhecimento das coisas dos espíritos, a abordagem conceitual não é suficientemente intenso e forte para produzir um verdadeiro conhecimento e somos obrigados a nos referir e esse outro tipo de conhecimento: o dos espíritos.
Isto são as premissas. Por que isso me interessa? Eu acho que as populações são mais sábias do que aqueles que são oficialmente seus guias. Ou seja, você vai observar as populações marroquinas, por exemplo, para elas uma doença mental é causada pelos espíritos. Para as pessoas comuns, é imediato, a causa são os espíritos. Há pessoas que não param de lhes dizer que não, que é psicológico, que é físico, biológico que qualquer coisa muito científica, eles vão dizer “tudo bem, tudo bem, você sabe muita coisa, deve ter razão, mas, a causa são os espíritos”. E a população continua a pensar assim, ela sabe que é mais eficiente, o povo continua pensando que é mais eficiente, apesar do fato de que seus guias oficiais, seus guias autorizados tentem extirpá-las de sua “selvageria”, seu “passado anacrônico” etc, mas o povo continua pensando assim.
E na França também, na França também. Eu fui visitar os exorcistas da rua Gilles Coeur, os exorcistas de Paris. Eu os encontrei várias vezes, por vários motivos, essencialmente para resolver assuntos de pacientes; eles recebem centenas de pacientes que dizem “exorciza-me”; e como eles são guias esclarecidos, que fazem parte dos guias esclarecidos da nação, eles tentam de todos os jeitos desencorajá-los disso. Dizem que é melhor consultar psiquiatras, eles têm até psiquiatras e psicólogos ali para exercer essas funções, conversar com eles, convencê-los a desistirem, mas os pacientes querem isso de qualquer jeito. E se não obtêm o que querem ali, vão buscar em outros lugares. Então o que me surpreendeu que foi muito engraçado, é uma das razões pelas quais eu trabalhei um pouco com eles, é que, havia também muçulmanos que iam consultá-los, porque eles estavam possuídos por espíritos cristãos, pensavam que como estavam possuídos por espíritos cristãos era melhor ser exorcizados por padres cristãos; e os padres exorcistas não sabiam o que fazer naqueles casos, era novo demais, bizarro demais para eles. Havia também populações africanas, muito ávidas desse tipo de coisa com os padres cristãos. Então o povo continua pensando que é mais eficiente pensar as coisas dessa maneira do que pensá-las a partir de uma abordagem conceitual que pode às vezes ser equivalente, que é às vezes mais precisa, mas que é mais pobre. Isso é uma primeira razão pela qual me interesso pelo mundo dos espíritos.
Mas há uma segunda razão. É que, e penso que isto tem conseqüências consideráveis, é que, a partir de uma abordagem conceitual, estamos na incapacidade total de pensar alguma coisa que não existe. Se eu lhe disser: pense um outro. Você vai me dizer um outro é o meu semelhante, é um ser humano que, como eu, tem duas pernas, dois braços, uma sexualidade como eu, desejos como eu, um pai uma mãe etc. Isto é a chatice do pensamento dos brancos. Perdoe-me se falo assim, estou errado em falar assim, mas isto é uma especialidade do mundo ocidental, é muito chato e na verdade é um desconhecimento da existência de outros universos. Ao lado disso, você tem pessoas que tentam pensar os outros, mas de maneira extremada, você tem isso no ocidente nos livros de ficção científica. Sempre me chamou a atenção que os primeiros escritores de ficção científica fossem sempre pessoas ou etnólogos ou pessoas ligadas de alguma forma à etnologia. Por exemplo Ursula Le Guin, que é a filha de Kroeber que é o maior etnólogo americano; é interessante que seja ela a criadora do romance de ficção científica americano. Mas é lógico, porque é pensar outros mundos totalmente outros. E aquele que fez isso melhor foi alguém como Vanvoke que descreveu pessoas, seres que o que pode ter na cabeça – talvez não seja nem uma cabeça – de um ser que tem três patas, duas antenas, 26 pares de olhos que anda em um mundo onde se pesa 3 gramas. O que é o pensamento de um ser assim? Somente a ficção científica conseguiu fazer isso, mas no universo cotidiano, na civilização de todos os dias, ninguém pode lhe dizer o que é um outro e lhe repetem que um outro é você mesmo, é o seu semelhante. Mas eu pouco ligo para o semelhante, isso não me ensina nada, se eu sou igual a você, não vejo graça em conhecê-lo, se você tem o mesmo tipo de pensamento, o mesmo tipo de sexualidade, o mesmo tipo de desejo, no fundo, eu já conheço seus desejos, não preciso conhecê-lo. Isso não me interessa. Enquanto que o universo dos espíritos é uma educação à alteridade. Não param de lhe dizer desde que você é pequeno, existem outros, totalmente outros, você deve respeitá-los, eles têm seus universos que são deles e se você não os respeita você pode adoecer ou morrer. O ideal seria que você conseguisse amá-los. Você não os amará, é muito difícil amá-los porque eles estão muito distante, então ao menos os respeite. É isso que ensina o mundo dos espíritos e esse mundo, se ele é tão impregnante nessas populações, é que ele é o melhor adaptado às sociedades atuais que são sociedades de passagem, não de mestiçagem porque acho que na verdade as pessoas se misturam muito pouco, mas sociedades de coabitação de universos múltiplos e que vão se tornar cada vez mais sociedades de coabitação de universos múltiplos. Isso me chamou muito a atenção no Mali, por exemplo, se diz que é na feira onde há mais espíritos. Na feira. Por quê? Porque na feira, as pessoas de todos os vilarejos se encontram e quando há coabitação de pessoas que vêm de várias aldeias, que sequer falam as mesmas línguas, então todos os espíritos estão ali. Há um rapaz chamado Dirha que encontrei na região de Bamako, trocamos saberes mútuos: o que você faz? O que eu faço? E ele me disse “eu curo pessoas que são atacadas por espíritos” e eu respondi “eu faço praticamente a mesma coisa em Paris”. E ele me respondeu “Nossa! Deve ser terrível, lá, deve ter muitos espíritos”. Ele tinha razão, há muito mais espíritos em Paris do que em Bamako, porque lá há uma infinidade de universos que coabitam que têm que se encontrar e forçosamente nesses espaços os espíritos aparecem muito mais. Por quê? Porque é uma obrigação pensar a alteridade, pensar uma verdadeira alteridade. E no fundo esses rituais que são rituais de possessão, de relação com os espíritos, são rituais de iniciação ao conhecimento da alteridade, mas de uma alteridade radical, de alguém que não é somente diferente aparentemente e teria o mesmo núcleo, a mesma raiz, a mesma estrutura, mas alguém que seria radicalmente outro, que teria uma lógica radicalmente outra. E até agora não encontramos nada melhor para descrever mundos radicalmente diferentes, é por isso que os povos continuam acreditando nos espíritos e que acreditam que é a melhor maneira de curar a doença mental. É isso que penso no fundo.
E no fundo se quisermos ir além, há uma lição atirar disso tudo. Um dos meus colegas, um amigo também, que tinha feito uma pesquisa há muito tempo, junto a uma população no Tchad chamada Mundang, descrevia um hábito deles bastante surpreendente. Eles fazem rituais de possessão, concernentes às mulheres. As mulheres regularmente repetem, mesmo quando não há doentes, um ritual no qual reconvocam seus espíritos. Sim, porque há também um lado festivo no ritual, ou seja: nós vos amamos e nós vos oferecemos leite, sangue, açúcar, todo tipo de coisas menos o sal que serve para espantá-los ou a urina que os faz fugir, mas há as coisas de que eles gostam, então faz-se um ritual com essas coisas que eles gostam, entra-se em transe e uma vez feito isso, essas mulheres que estiveram em transe se recolhem em suas casas e esperam; e então as mulheres que têm problemas na aldeia vão consultá-las. Ou seja, primeiro elas mostram que têm uma capacidade a entrar em relação com uma alteridade radical e quando todos constataram que essas mulheres sabem fazer isso, pode se conversar com elas, contar seus problemas pessoais de casa, estou mal com meu marido, ele quer uma segunda esposa, enfim, problemas cotidianos. Ou seja, aquele que conhece a alteridade, pode tratar os problemas surpreendentes do ser humano. É esse o implícito. E é por isso que até hoje não se pode substituir isso, é por isso que isso perdura.
E acho que é uma grande injustiça continuar dizendo que a crença nos espíritos é uma crença antiga, anacrônica, ultrapassada, que está desaparecendo; primeiro porque não é verdade, isso não está desaparecendo de jeito nenhum, está até aumentando, esses rituais se multiplicam. Quanto mais se desenvolvem as grandes cidades, mais há esses rituais. É exatamente o contrário do que se pensava. Pensava-se que a urbanização ia levar ao desaparecimento desses rituais, mas ao contrário, quanto mais cidades grandes, mais rituais desse tipo, quanto mais se adentra a modernidade, mais se tem contatos com universos complicados e desconhecidos, mais se tem necessidade de contato com os espíritos, e é como se as pessoas soubessem que quando se lida com essa diversidade, é necessário recorrer a esse tipo de lógica.
O que não significa que se deve parar por aqui. Pelo contrário, é necessário avançar no conhecimento desse tipo de lógica e conseguir chegar a algo que introduza a um conhecimento menos esotérico, porque esses conhecimentos são conhecimentos de iniciados, portanto são conhecimentos esotéricos, quer dizer esotéricos entre aspas, não são misteriosos já que pode ser explicados. É um mundo complexo, mas não é opaco, não é mais complexo que o mundo da física ou da matemática. É explicável, mas a penetração desse mundo, como se tornar profissional desse mundo... Alguém só se torna profissional desse mundo através da iniciação e isso dá espaços opacos enquanto que estamos entrando num universo de transparência onde os espaços, as formações devem ser abertos, transparentes, onde devemos saber qual a formação das pessoas, que risco corremos ao nos aproximarmos desse tipo de formação, ao recorrermos a esse tipo de dispositivo etc. E aí evidentemente há uma falha enorme. O pensamento inteligente se afastou desses dispositivos, no século XVI. Mas antes esses dispositivos eram sábios, antes do século XVI, o interesse e o questionamento sobre esses espaços e saberes era um conhecimento sábio. E o que estou lhes expondo aqui é no fundo o que se sabia e o que funcionava até o século XVI.
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Etnopsiquiatra francês, professor da Universidade de Paris 8, fundador do Centre Georges Devereux de ajuda psicológica às famílias de migrantes. Tradução de Florence Dravet.
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