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Ira de Iara
O homem partido ao meio pelo furor do raio
Seu orgulho em pedaços ferindo a cada passo
Sua imagem queimada cinzenta de feiúra
E as palavras levadas ao que se despreza
A ignorância paira, chove chumbo e troveja
O homem partido em quatro pelo furor do riso
Seus medos esparramados sobre a cama desfeita
Suas máscaras arrancadas nas mãos da mulher-água
Ela brinca de pô-las e ri-se no espelho
Quanta contradição nas caras deste homem!
O homem partido em mil pelo furor da queda
Os fios que o seguravam cortados a facadas
Ele está sozinho sua fraqueza à mostra
Com a cola do ódio quer juntar seus dentes
Para morder aquela que o despiu agora
Mal sabe o homem nu que a força de Iara
Reside no silêncio que anda desarmado
Não sabe o desdentado que com toda a ira
Não haverá combate, nem palavras à toa
Não haverá resposta para a vulgaridade
Haverá sim a chama no coração poeta
Acesa pelas Musas sempre a acompanhá-la
***
IARA
– o pesadelo do homem (Ou a Beleza e a Sabedoria)
O pesadelo do homem
Iara
– mulher de terra e mar;
água de dentro e fora;
pedra de fogo e frio;
Iara – alta vela branca, inflada aos ventos de todo
continente.
Vêm-lhe
de outrora os calafrios atmosféricos e o conhecimento
de um diamante clamoroso; o inefável. E em seu sangue
tamanho segredo, minúsculo motor de alento titânico,
ela cavalga. A carne nua sob os véus da inocência
e da adúltera verdade –
incestuosa, ela galopa. O íntimo ainda molhado do suor
desejoso, ela afronta, avantajada, íngremes picos –
desertos vivos – pisoteando os desaforos de uma razão
vencida.
Sua sabedoria a céu aberto, largando amarras no imenso
sopro, Iara CANTA.
E
lá embaixo, chove tristeza pura sobre a vontade desesperada
dos homens pequeninos.
***
Iara
cancan
Ela
amava por inteiro.
Com o corpo todo, a alma estendida no céu e as idéias
estrelando.
Ela amava para sempre.
Com a vontade, a lealdade, a humildade e a graça derramada
por cima.
Ela amava noite e dia, céu e terra, cobras e pássaros.
Amava a todos, até aos patos.
Quando
o caçador atirou, os patos mergulharam e ela subiu.
Sumiu.
***
Iara
na tina
As
lavadeiras ao meio dia, pingando suor na tina. Olhando a roupa
branca na água.
A roupa branca fervida na tina e os segredos esvaecendo;
As lavadeiras descendo a ladeira, e a roupa secando ao sol;
Com as crianças jogando bola e os homens na vida para
lá;
As lavadeiras às quatro horas, subindo a ladeira com
a tina, a roupa limpa na cabeça
E a força toda no rosto.
E
os homens a indagarem ao entardecer: de onde vem esse sorriso
vermelho?
Era
o reflexo da Vida no fundo da água da tina.
Para agüentar o homem seco, os filhos todos e a quentura
do quarto.
Sorriso bendito! Vermelho da força de Iara! Até
na água da tina...
Mas
o boi, ah coitado, andava em círculos!
***
Iara
abóbora
Às
vezes é Iara seca, em desespero, no meio da rua, perdida
dos rumos da água, surda dos encantos da vida. Iara
doida, descabelada dentro da abóbora. E o verde estagnado
no fundo dos olhos dela.
Às vezes Iara banhada de mel, uma vela laranja noite
adentro a ressuscitar os rumos da doçura e o verde
da luz com ônix na fundura.
Ou Iara sozinha no espaço todo com o crescer da abóbora,
inchada de vontade suspensa, um tesouro de abnegação
saturado de força virando carruagem nos sonhos de Iara.
Iara abóbora pingando lágrimas de chumbo, rodando
de hora em hora, vazando Via Láctea.
E no fim, Iara acordada, fria de toda a Lua, um punhal em
cada mão, colhendo rosas frescas. Negras. Amarelas.
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