Luto – a perda do outro


Há milhares de anos ela percorre as cidades
Vestida de branco – montada num boi preto
Ela plantou entre os dois chifres do animal
Uma vela enorme que nunca apaga
E segue atrás toda a manada


Há milhares de anos que ela busca o Homem Inteiro
Vestiu o boi com panos coloridos
Jogou-lhe por cima seus rasgos mudos
Pendurou-lhe chocalhos leves
E atrás dela seguiu toda a manada


Pelas cidades eles caminham em silêncio
Avultam-se em tilintares
Declaram-se aos bramidos
E à meia-noite, na negritude, reluz a vela
A grande lua de Iara


Em meio ao sono brando dos felizes
Deságua Iara em canto claro

***

Boi-girô

 Se da aranha ele fez o sol, hei de sentir a sua luz!

Os rumos do Celestial já me fizeram dar mil voltas
Tracei um sulco com meus cascos
Senti a lama aos meus pés
Pisei o húmus de minhas vidas
E os vômitos na várzea das entranhas
Comi a terra
Soprei o fumo do calor de dentro
Vislumbrei no lodo a resposta efêmera
Do céu cristal


Rangia o eixo entregue ao eco
E à soberba das montanhas
Ouvia-se o grito fino – o infindável
O vento frio secava-me o suor no lombo
As vidas belicosas aniquilavam-me
Não havia palavra mais que silêncio vivo
Metais e sopros – alheamento
Pedras às vezes


E o colorido das bandeiras. Fanfarras-festas. Festas-fanfarras.
A aranha negra no meio do sol
Festas-fanfarras. Fanfarras-festas
A aranha negra – no meio da testa!

 

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Rasgos de Brasil Inteiro - Boi-girô ou o Gerado e a Expansão

I. Aos tropeços – o amor que nasce

A primeira voz que ouvi, era doce e potente... Hei de encontrar um Celestial na cúpula deste universo. Porquanto, eu vou sozinho, no passo-a-passo ajoelhado. Porque a voz sumiu e fui aqui deixado solto.

Vou pela relva a imitar os traços dos corações adoentados. Vou pela relva a sussurrar os cantos da memória presente; daqueles que a loucura poupa e a consciência arranha; os que caminham em pé que serão meus modelos; os que me são no espelho, eu que vou de joelhos.

De mil tropeços é feito o meu caminho. Mas minha solidão não é um abandono. Sou tão-somente o peregrino de uma voz sumida. Detenho-me a observar os pássaros no céu de areia; e a contar os grãos que vejo um a um. No gotejar do tempo.

Dentro do raio, some com o bicho, num último desenho, o bater de asas; a noite levou o negro pássaro e agora devagar se inscreve a marca em meu peito: - Eu o amava!

Já há muito tempo que voa baixo o grande astro, deixa na árvore o seu rastro, pinta de rubro os finos ramos, e os abraços angelicais. A noite cobre de frio a folhagem nua. Sinto o meu corpo e a fome toda. Ao pé da vida, procuro a casca, no pasmo breu da vastidão. E minhas mãos se enchem de calos: - Eu o amava!

Noite de terra baixa e de perseguição! Ouvi sua voz aterradora. No passo-a-passo ajoelhado. Estava só e só amava.

 
 
 
 
 
 
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