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O Samba é uma Crônica
Eduardo Manhães*
(para Claudio Oliveira)
Em “Literatura e Sociedade”, Antonio Candido, constata que “as melhores expressões do pensamento e da sensibilidade têm quase sempre assumido, no Brasil, a forma literária” (P.119).
Sua constatação visa construir a tese de uma “inflação literária” (P.151) em nossa formação social. Segundo ele, “o prestígio das humanidades clássicas e a demora da irradiação do espírito científico” teriam gerado uma “fraca divisão do trabalho intelectual” (P.120), que levaria nossa sociologia, surgida no início do Séc XX, de “Euclides da Cunha a Gilberto Freire a aparecer mais como ‘ponto de vista’ do que como pesquisa objetiva da realidade”.
Essa “inflação literária” teria feito surgir um “gênero misto de ensaio, construído na confluência da história com a economia, a filosofia ou a arte, que é uma forma bem brasileira de investigação e descoberta do Brasil”.(P.119)
Segundo ele, num ensaio escrito em 1965, esse processo teria refluído, com uma demarcação mais clara entre literatura e ciência social, o que hoje pode ser problematizado. Mas, o que para nós é fundamental, é que esse processo de demarcação de um campo especificamente literário, juntamente com o crescimento ou surgimento de novos meios de expressão, como o rádio, o jornal e a televisão, da sociedade de massa, “antes que a consolidação da instrução permitisse a consolidação da literatura” propriamente dita, levaria, segundo ele, um número considerável de pessoas a participar “de maneira mais fácil dessa cota de sonho e emoção que garantia o prestígio do livro” (P.126) por meio dessas novas linguagens.
Ou seja, Antonio Candido vislumbra, é verdade que com desconfiança, a oportunidade de um novo tipo de “inflação literária”, popular, com o surgimento de outras mídias, que, possivelmente, virão “fornecer ao público o ‘retalho da vida’, próximo à reportagem jornalística e radiofônica”. (P.126)
Para nós, o samba posiciona a canção popular justamente nessa direção, ao se construir como modalidade discursiva que metaforiza a existência e a sociedade, a vida e o mundo, narrando cenas que discorrem criticamente sobre situações, que dramatizam o cotidiano das instituições, materializando mecanismos de enunciação em que o enunciador, o narrador ou o personagem representa um papel que redefine os valores, as funções, a divisão de trabalho e a cultura, compreendida aqui em seu sentido antropológico mais amplo.
O sambista assume, então, em nível de senso comum, a posição do repórter ou cronista social, sendo legítimo herdeiro exatamente da literatura representada pelo citado “gênero misto de ensaio, construído na confluência da história com a economia, a filosofia ou a arte, que é uma forma bem brasileira de investigação e descoberta do Brasil”, que fundou nossa ciência social.
Em “A Opinião no Jornalismo Brasileiro”, José Marques de Mello defende a tese que a crônica, do modo como a fazemos, é um gênero literário típico do jornalismo opinativo brasileiro, que possui dois aspectos indispensáveis: fidelidade ao cotidiano e crítica social. A eles, somam-se duas marcas formais características: a) em consonância com a origem do termo Cronos, a crônica adquire a forma de relato de fatos ao longo de um determinado tempo; b) o relato cumpre a função de significar os acontecimentos de acordo com a impressão do enunciador.
José Jorge Letria e José Goulão afirmam que:
“Este gênero jornalístico é o que mais contato tem com os gêneros literários clássicos. Os fatos são, portanto, um pretexto, para o autor da crônica. A partir daí ele dá vazão aos seus sentimentos e, com absoluta legitimidade, pode entrar na ficção.” (1982. P.85)
O samba, como modalidade discursiva que constitui “indivíduos quaisquer” em sujeitos sociais mediante mobilização de mecanismos de subjetivação relacionados a um determinado cenário, possui todos os aspectos e marcas descritos aqui. É uma narrativa que desloca o eixo explicativo da estrutura para uma “situação-problema”, em que cenas do cotidiano são mostradas como pretexto para formular valores contra-hegemônicos.
A cena mostrada enquadra um acontecimento, destacando-o do devir. Com ela, constrói um espaço e uma temporalidade representativos do imaginário popular-nacional, na qual esse enunciador ou narrador significa as situações com a intenção de causar impressões que redefinem os valores e as relações sociais. Assim, a forma da crônica vai ao encontro da intenção de redefinir os valores e as regras sociais, a partir de um drama cotidiano, que cumpre a função metafórica de simbolizar o social, condensando-o, para relacioná-lo com novos sentidos.
Julgamos interessante listar três exemplos demonstrativos do formato da crônica, típico do samba.
O primeiro é o samba “Mãe Solteira”, em que Wilson Batista e Jorge de Castro contam a história do suicídio de uma mulher que “teve vergonha de ser mãe solteira”, para, mediante a narrativa do acontecimento singular, estabelecer uma visão crítica do moralismo dominante, que qualifica de modo generalista e totalitário atos e pessoas, a despeito de suas circunstâncias. Dizem os autores.
“Hoje não tem ensaio,
na escola de samba.
O morro está triste
e o pandeiro calado.
Maria da Penha,
a porta-bandeira,
ateou fogo às vestes,
Por causa do namorado.
O seu desespero
foi por causa de um véu.
Dizem que essas Marias
não têm entrada no céu.
Parecia uma tocha humana,
rolando pela ribanceira.
A pobre infeliz
teve vergonha de ser mãe solteira.”
É interessante notar que a narrativa assume a forma da reportagem, descrevendo com detalhes aspectos factuais do ocorrido. Maria da Penha “ateou fogo às vestes”. A linguagem parafraseia o jargão policial. Em seguida, rolou pela ribanceira como “uma tocha humana”. A situação, entretanto, a despeito de sua singularidade, é utilizada para demarcar o confronto entre a solidariedade dos que possuem uma razão ou sensibilidade que “nasce do coração” - significados pelas expressões “o morro está triste”, “o pandeiro calado” e “hoje não tem ensaio na escola de samba” - e o veredicto da moral hegemônica, que afirma: “essas Marias não têm entrada no céu”. A contraposição crítica das duas perspectivas explicita a intenção do cronista, que utiliza a cena como pretexto, do modo como nos explica a teoria. E vale registrar, ainda, que, no julgamento moralista, o objeto da ação é um “indivíduo-qualquer”. São “essas Marias”, um conjunto formado por unidades indiferenciadas.
Outro exemplo interessante nos é oferecido por Haroldo Barbosa e Luís Reis, em “Notícia de Jornal”. Agora, o comentário crítico da notícia é explícito e o sambista transita sem máscaras para a posição do jornalismo opinativo, utilizando-se do fato cotidiano como síntese da existência e da sociedade.
A letra refere-se à notícia da tentativa de suicídio também de uma “Joana de tal, por causa de um tal João”. Vejamos a primeira estrofe:
“Tentou contra a existência, do humilde barracão.
Joana de tal, por causa de um tal João.
Depois de medicada, retirou-se pro seu lar.
Aí, a notícia carece de exatidão.”
A notícia, entretanto, é mostrada para que o sambista discorra sobre o drama humano, para o sentimento das pessoas, para “a dor da gente”, que não sai jornal, para quem o acontecimento é um “fait-divers” e os indivíduos sempre quaisquer. Prossegue o samba.
“O lar não mais existe, ninguém volta ao que acabou.
Joana é mais uma mulata triste que errou.
Errou na dose.
Errou no amor.
Joana errou de João.
Ninguém notou,
ninguém morou,
na dor que era o seu mal.
A dor da gente não sai no jornal.”
Do ponto de vista figurativo, “Joana errou na dose”, que não foi suficiente para matá-la. No domínio existencial, não. A dose foi exata. Na medida para chamar atenção e viabilizar sua tentativa de sair da situação de “indivíduo-qualquer”. Daquele que ninguém nota a dor, nem os jornais, nem “um tal João”. As expressões “ninguém notou” e “ninguém morou” enfatizam o drama vivenciado, dando racionalidade ao mecanismo de subjetivação mobilizado em contrapartida ao abandono e ao anonimato.
Com a letra, o cronista faz uso da cena, na qual “Joana” mobiliza o mecanismo de subjetivação daquela que tenta o suicídio para pedir socorro, denunciando a redução das pessoas a instrumento ou mecanismo do sistema.
Por fim, um terceiro exemplo da incorporação da voz da crônica pelo sambista é “De Frente Pro Crime”, de João Bosco e Aldyr Blanc. A enunciação discorre sobre a morte, na rua, de um “indivíduo-qualquer”, de acordo com o que reporta um narrador de sua janela, cuja moldura enquadra também o acontecimento. Conta o narrador.
“Tá lá o corpo estendido no chão.
Em vez de rosto, uma foto de um gol.
Em vez de reza, uma praga de alguém.
E um silêncio servindo de amém.
O bar mais perto depressa lotou.
Malandro, junto com trabalhador.
Um homem subiu na mesa do bar
e fez discurso pra vereador.
E veio o camelô vender
anel, cordão, deixou no barato.
Baiana pra fazer pastel
e um bom churrasco de gato.
Quatro horas da manhã,
baixou um santo na porta bandeira
e a moçada resolveu
parar, e então.”
Nas duas estrofes anteriores, a reportagem descreve aquilo que viu, remontando com graça o cotidiano de uma grande cidade brasileira. Os transeuntes e a população de rua concentram-se diante do fato inusitado: “um corpo estendido no chão”. “O Bar mais perto depressa lotou”. A aglomeração é uma boa oportunidade de negócio para a baiana do pastel, para o camelô e para o vendedor de churrasco. É também oportuno para o candidato a vereador.
Mas a impressão que o cronista deseja levar aos leitores é que o crime de morte nas ruas realiza a “situação-limite” da indiferenciação do “indivíduo-qualquer”. Ele não passa de “um corpo estendido no chão”. Pois, a despeito de tudo, “depressa foi cada um pro seu lado, “pensando numa mulher ou no time”. Foi o que viu o narrador, que, em seguida, rotineiramente, fechou “sua janela de frente pro crime”. Diz a letra.
“Tá lá o corpo estendido no chão.
Em vez de rosto, uma foto de um gol.
Em vez de reza, uma praga de alguém.
E um silêncio servindo de amém.
Depressa foi cada um pro seu lado,
pensando numa mulher ou no time.
Olhei o corpo no chão e fechei
minha janela de frente pro crime....”
Vê-se que a abertura da janela é a representação do recorte que segmenta o devir, construindo o fato, o acontecimento ou a cena que dramatiza a existência e a sociedade.
Do ponto de vista formal, a narrativa, não raro, expressa-se por meio de atos de fala que se legitimam por uma suposta superioridade ou mesmo autoridade, já que o enunciador se imagina detentor de uma sabedoria, ainda que coloquial, que o distingue. Do bom senso. Ou seja, de um ponto de vista construído mediante uma experiência crítica especial que revela a complexidade óbvia do real.
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*Sociólogo.
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