Pecados da omissão

Alberto Manguel*

Um leitor pode definir-se pelo que lê como pelo que recusa ler. “Está aí como ameaça, não como leitura”, dizia Severo Sarduy de um exemplar de Os Ciprestes crêem em Deus que alguém havia deixado sobre sua mesa. Mark Twain se ufanava de não haver lido nem Madame Bovary nem Orgulho e preconceito. "A melhor maneira de começar uma biblioteca”, aconselhou, “é omitir as obras de Jane Austen". "Não me desloco nunca sem meu exemplar de Clarissa", explicava Evelyn Waugh quando o viam tomar o trem com a volumosa novela de Richardson debaixo do braço. "Me serve para manter a porta entreaberta".

No mundo da escritura, confessar os pecados de omissão é um fato menos comum. Stéphane Mallarmé, em uma carta a Paul Verlaine, admitiu não ter escrito nunca sua obra desejada, isto é, "simplesmente um livro, em vários volumes, um livro que fosse de verdade um livro, arquitetonicamente sólido e premeditado, e não uma coleção de ocorrências casuais por mais maravilhosas que sejam". E Nathaniel Hawthorne anotou em sua lista de projetos não cumpridos este que nunca executaria: "Relatar um sonho que se pareça com o decurso real dos sonhos, com todas suas inconsistências, suas excentricidades, sua falta de propósito e, sem dúvida, com uma idéia central permeando tudo. Até esta velha idade do mundo, nada semelhante foi escrito".

George Steiner, a quem nenhuma terra incógnita intimida, confessa em Éste, seu livro mais recente, sete de tais pecados: sete livros não escritos que tentou exorcizar traçando seus vagos contornos na página. Todavia, os livros que nunca escrevi não são uma antologia de desejos descumpridos. Cada capítulo é um mapa lúcido e erudito de certo lugar que Steiner diz não haver desejado ou explorado a fundo. Misteriosamente, sua cartografia basta.

Ler Steiner me faz  voltar à consciência da vastidão de minha ignorância; me lembra o que Robert Browning chamava "um colhedor das migalhas do saber", agradecido pelo que caía de sua mesa. O primeiro livro "não escrito" é sobre o estudioso Joseph Needham de cuja existência eu nada sabia. Segundo Steiner, os textos de Needham abarcavam o repertório quase completo do saber humano, desde a história da ciência até a história do pensamento, desde a hermenêutica e as novelas históricas até a biologia e o estudo dos cristais. A culminação dos estudos deste sábio inglês foi a obra Science and Civilization in China, um colosso de vários tomos, iniciado em 1937 e acabado pelos discípulos de Needham mais de meio século depois de sua morte. "Nenhuma bibliografia", escreve Steiner, sem nos consolar, "pode dar idéia da densidade das percepções de Needham". E todavia, para estes aparentemente infinitos mundos, Steiner encontra uma cartografia útil e não usual. É Proust quem, assombrosamente, serve a Steiner como guia para entender o complexo universo deste "arqueólogo da consciência". "SCC e a Recherche", explica Steiner (e sabemos perfeitamente o que quer dizer) são "os dois atos mais importantes de relembrança, de total reconstrução do pensamento, a imaginação e a forma executiva modernas".

Invidia é o título do segundo volume fantasma. "Imagino que não são muitos hoje os que lêem as obras de Francesco degli Stabili, mais conhecido como Cecco d'Ascoli". (O “mais conhecido" associa-se desagradavelmente ao "imagino" já que o pobre Cecco não aparece faz tempo nas listas dos best sellers). Professor de Astrologia em Bologna, despedido por heresia em 1324, acusado mais tarde de se atrever a fazer o horóscopo do próprio Jesus Cristo, Cecco deve sua evanescente fama principalmente a seu ódio por Dante, contra quem escreveu uma longa e didática epopéia, a Acerba. Seus contemporâneos entendem que a maior paixão de Cecco foi a inveja, nascida talvez do fato de saber-se incapaz de igualar-se à arte do florentino. A partir desta observação, Steiner nos introduz ao problema mais complexo da inveja clássica cuja dualidade, nos diz, se encontra refletida no vocábulo francês “envie”, que significa tanto "inveja" como "desejo". Esta tensão antagônica esclarece em parte os sentimentos de Cecco ao ler a Comédia, como quem contempla o céu sem saber como pintá-lo. "O homem", Steiner argui, "não pode igualar, e muito menos superar, o poder, a fantasia, o acolhedor encanto que sai do ofício de Deus. Que são nossas pinturas mais sublimes comparadas com o amanhecer? Que é nossa música ao lado da das esferas celestiais? O Paraíso é a declaração clássica destas coisas incomparáveis. A única, ainda que indestrutível, contradeclaração do homem é a das palavras, da gramática em que está redigido Jó. Uma linguagem que Deus tem que falar para que o ouçam".

O imaginado livro Invidia nunca superou sua condição esquelética porque, como ingenuamente confessa seu autor, o tema roçava algo demasiado doloroso e íntimo. É possível que a maior parte destes textos deva seu estado onírico a esse mesmo recato: Los idiomas de Eros, uma exploração da vida sexual da língua; Sión, sobre o exílio como parte da natureza do judeu e sobre a brilhante noção de que "o judeu é odiado não por ter matado a Deus senão por tê-lo inventado e criado"; Cuestiones educativas, que propõe uma educação pública centrada nas matemáticas, a música, a arquitetura e as ciências da vida, ensinava, quando possível um contexto histórico; Del hombre y la bestia, sobre suas convicções "confusas e irracionais" acerca da relação entre seres humanos e animais. Mas há mais. "A filosofia", escreve Steiner em seu aforístico prólogo, "ensina que a negação pode ser determinante". Tal afirmação, além de oferecer uma discreta justificação ao volume, sugere algo mais, algo profundo e essencial, que Steiner comenta brevemente no sétimo de seus livros não escritos, Petição de princípio. "O que sustentei desde meus primeiríssimos livros", diz Steiner, "é isto: a 'questão de Deus', da existência ou inexistência de Deus, e as tentativas de dar a essa existência 'uma morada e um nome' foi o que até há muito pouco tempo estimulou em boa medida a maior das artes, a literatura e as construções especulativas. Proporcionou a consciência seu centro de gravidade". Imaginar que ele, George Steiner, tem "algo original, não digamos autorizado, a oferecer em resposta", lhe parece "uma impertinência".

E  todavia, sua excusatio própria infirmitatis não nos convence de todo. Ao mesmo tempo em que descarta uma "mística negativa", Steiner, resignando-se ao que chama "a fragilidade da razão", exige o direito de "sentir intensamente" a ausência divina. "Se relaciona, e de novo me faltam as palavras, com a tristeza, com o abismo que há no centro mesmo do amor. Talvez seja algo assim como a obscuridade animada pelo que um cego anda tateando com seu bastão no ilusório meio dia do mundo. A meditação sobre um 'não Deus' pode ser tão concentrada, tão humilde ou prazenteira como todas as da teologia e o culto aprovados. Não desencadeia, creio eu, estupidez nem ódio. Atemorizador é o Deus que não é". Neste espaço mental, espiritual, devemos, diz Steiner, permanecer só. A fé (ou falta de fé) deve ser algo privado. "A publicação", previne o mestre, "abarata e falsifica a fé de maneira irremediável". O poderoso, o incompleto, o fragmentar , o dom de brindar-nos notas para a definição de algo que nunca acaba de ser dito, define (em parte) a literatura que chamamos maior, de maneira explícita em Heráclito, em Pascal, em Kafka, em Borges, de maneira explícita em outros. "Farei tais coisas!", jura o rei Lear. "Ainda não sei que coisas, mas serão os terrores desta terra!". A ameaça basta. A capa do livro mostra Steiner sentado frente a sua máquina de escrever, os olhos fixos em uma folha de papel em branco. A imagem ilustra o sentimento do leitor ao chegar à última página: estes livros anunciados existem no ato de concebê-los, no momento que precede a criação. Pouco importa que esse momento não chegue nunca; foram lidos por nós e pertencem agora à biblioteca de nossa memória. Que não tenham sido escritos é um descuido sem importância, um excesso de modéstia que podemos perdoar em uma empresa intelectual tão ambiciosa, inteligente e jubilosa.

 

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* Alberto Manguel é escritor.

 
 
 
 
 
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