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Os poetas falam frígio - À procura da metáfora primordial
por Luiz Martins da Silva *
O
que será, de fato, a criação primordial?
Aquela que vem da origem,
do berço, que nasce conosco, porque assim o somos,
é da nossa natureza. É o nosso elo com o início
e que faz parte de uma memória imemorial.
Três aspectos devem
ser considerados de início: o indivíduo, o social
e o devaneio. Por parte do indivíduo, há uma
circunscrição ligeira na história da
espécie, o que o torna muito mais a espécie.
Tem, no entanto, as suas gravações enquanto
experiências singulares. O social, por seu lado, é
mais que a soma de indivíduos, é uma sedimentação
constante, enquanto durar a espécie.
A memória coletiva
far-se-ia por dois meios: o primeiro, por sensação;
o segundo, por representação. Primeiramente,
nós somos; em seguida, imaginamos que somos e como
somos, o que importa, certamente, uma grande dose de desejo
e de sublimação.
Uma pergunta inquietante
seria, porém, a seguinte: será o indivíduo
capaz de fazer uma narrativa individual? Ou, seria próprio
do narrar a transcendência ao indivíduo, átomo
do social? Ora, se tudo no social é relacional, existirá,
de fato, esta figura do indivíduo? Que sentido tem,
para si e para os outros, o indivíduo? Para o Direito
é que a imputação é individualizada,
mas, note-se, quem mais define um imputável senão
o coletivo?
Falar dos primórdios,
consequentemente, é sobretudo referir-se ao que temos
de memória da raça. E não seria, neste
sentido, a intuição de Ezra Pound, quando afirma
que os poetas são as antenas da raça?
Torna-se, então,
complicado falar-se de criação, se o criador
traz, coletivamente, traços indutivos. A cada indivíduo,
no entanto, caberia no mínimo a propriedade do executor.
Tal como na língua, que é um estatuto social,
mas que comporta variantes, nuances, entonações.
Vejamos, no entanto, quais sejam as circunstâncias da
criação primordial.
Julia Kristeva recupera
uma lenda segundo a qual um rei egípcio isolou duas
crianças desde o nascimento, com a intenção
de descobrir em que língua se expressariam. Tinha o
objetivo de inferir qual teria sido o primeiro idioma do mundo.
Resultado: a primeira palavra articulada pelos meninos foi
pão, em frígio. Logo, o frígio seria
mais antigo que o egípcio.
Valemo-nos do exemplo
para abstrair uma condicionante imediata. Se alguém
tem fome, condicionará fisiologicamente o seu imaginário
a desenhar imagens de alimentos, da mesma forma como quem
tem sede tornar-se-á obcecado por água; se dormir,
sonhará que bebe. Queremos chegar à condição
básica, que é a do devaneio. Os meninos isolados
pelo rei egípcio estavam, certamente, num estágio
ainda muito nutritivo, de levar à boca tudo que agarram;
de defender instintivamente a sua sobrevivência. Vamos
levar, então, o seu humano à sua condição
de humanidade, ou seja, quando ele está pleno, livre
e pronto: o devaneio. Sem nenhuma emergência, sem nenhuma
contingência, pode perfeitamente viajar pelas imagens
que bem lhe aprouver. Em se sonhando acordado, sonhará
com quê?
Numa situação
destas, o poeta sequer estará preocupado com a forma,
o estilo, o enquadramento estético de suas imagens.
Deixar-se-á fluir, na poesia primitiva e ingênua
das imagens sem compromisso, vãs, devaneantes. Se,
no entanto, fizer um registro destas imagens, a escrita ou
o grafismo, teremos manifestações empíricas
destas flutuações.
Há vários
anos, passei pela experiência de fazer parte de um júri
encarregado de selecionar os melhores livros inéditos
de poemas dentre mais de quatrocentos candidatos (sem nenhum
pré-requisito). Ora, evidentemente, não estavam
ali quatrocentos bons poetas, como os quatrocentos finalistas
do mundial de alguma modalidade esportiva, e sim, quatrocentos
aventureiros esperançosos de que os seus versos tivessem
para uma comissão um grande sentido. A maioria esmagadora,
portanto, refletia, coletivamente, uma condição:
aquela que o ser humano livre em suas imagens apresenta como
sendo o melhor produto de seu devaneio. E qual foram as minhas
conclusões?
Conferi que aquela massa
continha, tal como uma grande pepita quando vem das entranhas
da terra, preciosidades ainda sob condição caótica,
contudo, apontando indicialmente para categorias poéticas.
Constatei um sem número de metáforas semelhantes,
diferindo aqui e ali – não eram iguais, evidentemente
–, mas afins. Abstraindo os autores, e agrupando os
parentescos, tinha uma boa amostragem de que na sua condição
poética básica (figurações arquetípicas)
o ser humano é muito parecido.
Luz, Sol, Lua, Estrela,
Terra, mar, rio, lago, montanha, noite, dia, vento, flor,
semente, fruto, pássaros, asas e vôos. Tudo isso,
em movimentos e somado a insistentes manifestações
de desejos, desejos encaminhados sobretudo para reparações
de grandes perdas e a sobrevinda de um horizonte remissor.
Sublimações, portanto.
Inferência primeira:
a criação primordial é elemental . Os
elementos fornecem as contribuições originárias
da metáfora, poesia primordial. Não apenas os
elementos básicos da Química: Água, Terra
e Ar e Fogo, mas também os seus derivados, componentes
e variações: cachoeira, pedra, brilho etc. O
líquido, o sólido e o gasoso. O sangue, a vida,
a morte, a purificação. Mas, sobretudo Luz,
muita Luz. É preciso que tudo isto esteja iluminado,
mesmo quando o poeta clama e reclama da escuridão,
das trevas em que se adentra quando lhe sobrevém o
desconforto, a infelicidade, a perda do que tanto ama.
Um rio que passa; uma
casinha entre montanhas; algumas árvores; um céu,
um Sol e alguns pássaros. Quem não já
desenhou esta paisagem primitiva? Noutra escala, os poetas
ainda puros – ingênuos, inaugurais, naïves
–, desenham no imaginário este mesmo quadro infantil.
Por vezes, tentam fugir no simples; empolam o estilo; cultivam
o estranho, o bizarro, o surreal, o dada. Lá, ainda
que entremeada, estará a Luz: o reflexo, a centelha,
o olhar: a visão iluminada das imagens fundantes, da
poesia e do poeta.
Queda e retorno; perda
e restauração; culpa e remissão; morte
e renascimento; trevas e luz. E, entre um pólo e outro,
o poeta, num percurso heróico, mítico e profético.
Uma travessia, cujo relato faz as vezes de uma ode inaugural.
Um relato energético e purificador, de tudo que teve
de purgar para atingir um novo milênio – alvorecer
de nova era, de conforto. Eis, aí, presente, o mito
da Vitória, que surge em meios aos clarões e,
muito freqüentemente, alada. Asas do desejo, Fênix
incansável entre Luz e Cinzas, Cinzas e Luz. Houve
uma vez um paraíso, perdido; retorna-se a ele. Há
uma passagem, de um estágio para o outro; há
um preço a pagar: energia, queima, alquimia, transmutação.
Por vezes, o poeta é profeta: ainda não se recompôs;
ainda não logrou alçar vôo e sair do baixo
astral – a sua estada no inferno, mas já antevê
o porvir (é noite, mas a aurora logo vem). Por vezes,
o trovador já usufruiu da bem-aventurança, mas
tudo isso o deixa entediado, quer novas lutas, novos horizontes.
Não tarda, despencará outra vez, estropiado
pela ambição de não se contentar com
o contente. A vocação dos píncaros jamais
atingidos. Sísifo rola pedra montanha abaixo, seja
porque este é o seu pathos e o fator que determina
e ordena o seu drama e a sua cíclica redramatização;
seja exatamente porque a Vitória é símbolo,
sempre incompleto. Ainda não é desta feita que
alcançará religar o que foi originariamente
se-pa-ra-do.
Da representação
(desejante) da realidade terrena para a metáfora; da
metáfora para a alegoria; a alegoria como uma figuração
continuada, processual. Eis a trama básica, o veio
que o poeta descobre e explora, a ponto de isto se tornar
mais que uma recorrência, uma contingência. Esta
é a sua condição: cantar. A sua lira
é a sua própria lide; renuncia a um concreto
sem graça e encher-se de graça pela via do sublime.
Temporal sublimação, já serve para alguma
coisa: acalanto. A sua condição é terráquea
e terrível, mas sua vocação é
o alto, o céu, a Luz.
Ora, o que é o
pão senão metáfora do sustento entre
o nascimento e a morte? Ele próprio, pão-signo/símbolo,
consubstancia em si o segredo-mensagem percurso-alquimia da
transubstanciação. Um dia foi trigo-semente;
baixou ao úmido, hibernou; acordou-se outro ser, projeto
de planta; germinou, cresceu, amadureceu, repartiu-se. Reunido,
triturado, amassado e amalgamado, fermentará a mudança,
a passagem para outro estado, já não é
trigo, mas pão. Foi ar, terra, água, fogo e
cumprirá a sua missão energética de manter
a vida. Ora, poderia o menino responder ao rei (em frígio,
em céltico, em português...) palavra-parábola
melhor que a pronúncia-magia do pão? Que palavra
primeira poderia sair da boca, senão o que a ela retorna?
Reúne, assim, o pão todo um script elemental,
genético, construtivista e transformacionista ; toda
uma circunscrição, entre o verbo e a matéria;
entre a Terra e o Céu (da boca). Se isto faltar, não
há vida. Não há fecundação,
não há nascimento, não há fermentação,
não há crescimento, não há transmutação;
não há retorno.
Configura-se, então,
pela trajetória circular do mito a compreensão
da metáfora primordial. Para além do pão,
está o poeta. De barriga cheia, devaneia. Cospe símbolos,
que na sua potência concentradora de sentido revela
dramas. O poeta conta para os outros a sua história
e o seu canto encontra ressonância: a história
é comum, é una, é comunhão. Todos
acorrem e fazem coro: tu cantaste em mim o que tu és:
ar, terra, água e fogo.
Versos primeiros soam
feito melodia estranha, mas reconhecível. Que meta-língua
é esta, que mesmo pela curva das figuras nos encaminha
para um idioma comum da Humanidade, que feito de imagens?
Imagens transcendem os tempos, elidem a História. Torna
todos os humanos harmônicos no sentir. Os poetas buscam
esta norma culta universal: a língua das imagens .
O poeta inaugural articula nos seus versos um idioma primitivo.
Tal como as crianças da experiência do rei curioso,
eles falam frígio. Por algum instinto que ainda conservamos,
nós os entendemos. Não na compreensão
lexical imediata, mas na potencialidade ulterior do símbolo.
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* Luiz Martins da Silva. Jornalista, mestre em Comunicação e doutor em Sociologia é professor da Faculdade de Comunicação da UnB, onde tem lecionado, entre outras disciplinas, "Oficina de Texto I".
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