| FRANZ
KAFKA
Quando li pela primeira vez a biografia de Franz
Kafka escrita por Ernst Pawel em 1990, ainda tisnado
por um ódio ingênuo tremi de raiva.
A imaturidade nos cobra um preço imenso.
E Kafka na verdade foi (continua sendo) propriedade
privada de vários biógrafos. Max Brod,
um dos poucos e raros amigos do escritor foi o primeiro
a escrever sobre a vida do romancista depois de
sua morte, sendo exatamente aquele que o salvou
do esquecimento e o lançou para a posteridade
ao publicar (a contragosto, diga-se) parte dos seus
livros postumamente.
O incrível na vida de Brod é sabermos
que ao conhecer Kafka ele, Brod, já tinha
nas costas 37 livros publicados, entre romances,
poesias, ensaios críticos, e até letras
de música, sendo famoso nos círculos
intelectuais de Praga, tido como uma espécie
de menino-prodígio. Mas o que ficou de Brod
para a posteridade, foi o fato de ter sido o “amigo”
de Kafka que desobedecendo ordens expressas do mesmo,
se negou a dar fim a obra do futuro romancista de
“O processo” e fez o mundo conhecer
uma obra fantástica.
Para quem tem algum manejo com biografias e conhece
a de Brod, cujo título é “Franz
Kafka”, sabe que ele cometeu, inevitavelmente,
todos os pequenos e grandes pecados de alguém
que foi tocado pelo objeto de estudo e que por ser
muito próximo do biografado teve dificuldades
em encontrar a distancia certa. Ainda assim, é
possível dizer que tal qual a biografia exemplar
de Ernest Jones sobre Freud em três volumes,
a de Brod continua sendo uma grande referência.
Há também a biografia lançada
por Georges Lamaire e que pode ser considerada de
médio porte, ainda que bastante melodramática
e um tanto excessiva. No entanto, a biografia definitiva
sobre Kafka é mesmo a escrita por Ernest
Pawel. Não há dúvida. Ela,
é o que podemos chamar de uma grande e moderna
biografia, com exceção, talvez, em
minha opinião para o título: “O
pesadelo da razão” que tento explicar
melhor abaixo.
O mergulho de Pawel no universo mental e literário
desse que certamente está para a literatura
mundial, como Machado de Assis para a brasileira,
é fascinante e comovente. Pawel encontrou
o tom certo e a distancia correta e faz um relato
completo desde o nascimento até a morte de
Kafka em um sanatório em Viena, por tuberculose,
aos 40 anos de idade, em 1924, passando pela análise
de seus raros amigos até a análise
de suas obras.
E quem tem um mínimo de contato com a obra
do escritor tcheco sabe ser impossível dissociá-la
de sua vida pessoal. Um clichê, certamente,
claro, mas no caso dele, verdadeirissimo. E nem
é preciso empreender qualquer relação
freudiana, de que todo romance é no fundo
autobiográfico. Mesmo em livros menores (se
é que é possível classificar
qualquer romance de Kafka como livro menor) como
“Diante da Lei”, “Um artista da
fome”, ou mesmo “Um veredicto”,
sem grande esforço, é possível
perceber nitidamente a relação entre
vida e obra, desde que, claro, se tenha algum conhecimento
sobre sua vida. E foi o próprio Kafka, acrescento,
quem falou dessa relação terrível
entre a sua obra e sua vida pessoal.
Kafka foi filho único por seis anos (nasceu
em 3 de julho de 1883) até o nascimento das
três irmãs adoradas (ele teve dois
irmãos antes delas, mas que morreram pouco
depois de nascer) e teve uma vida extremamente atribulada
e difícil com o pai Hermann Kafka, um comerciante
judeu duro, que a duras penas conseguiu subir na
vida tornando-se ao final um homem abastado. A relação
conflituosa de Kafka com o pai foi o motor de sua
vida, o que o levou aos 36 anos (não era
mais nenhum adolescente) a escrever a famosa “Carta
ao Pai”, que nunca foi enviada, mas que sobreviveu
e virou um dos grandes momentos da autobiografia
do autor.
Trata-se de uma longa missiva de 50 páginas
sendo o retrato inalterado e assumido do peso (mais
imaginário do que real) que o pai teve em
sua vida. A “Carta” é uma espécie
de acerto de contas contra aquele que se constituiu,
na subjetividade do autor, em seu tirano e o responsável
por uma vida reclusa, tímida, difícil,
oprimida, com uma atitude de auto desprezo e uma
incrível capacidade de se achar inútil
e fracassado.
É em meio a esse universo que Pawel consegue
trazer à tona sem perder os fios da meada,
todos os dados coletados percorrendo-os com uma
destreza e desenvoltura impar. Uma das coisas que
se percebe na biografia de Pawel, é que mesmo
sendo mostrado como um homem duro, Hermann Kafka
jamais foi levado a um gesto de agressão
física contra o filho, e que em vários
momentos parece na verdade ter tido uma preocupação
excessiva com ele. Mas isso claro não invalida
a imaginação fértil que tomou
conta de Kafka ao descrever e relatar o pai como
a de um “juiz” (tal qual no “O
processo”) supremo e onipotente diante de
quem o filho só podia se sentir um “nada
absoluto”.
Pawel desce a análise freudiana e aborda
com maestria e segurança o famoso “complexo
de Édipo”, chegando ao ponto de dizer
corretamente que muito do ódio de Kafka ao
pai, era na verdade uma transferência encoberta
de um ódio singular e verdadeiro a mãe,
que na imensa dedicação ao marido
(de fato, Julie Kafka, uma mulher bonita, foi uma
esposa extremamente dedicada) deixou no filho uma
sensação de desamparo e depressão
imensa. O que Kafka queria no fundo, como ele mesmo
revela na “Carta” era ser amado pelo
pai. Mas mais do que o pai, era ser amado pela mãe.
Ao longo da biografia, é possível
perceber, mesmo levando em conta o auto grau de
irrealidade, o preço emocional e subjetivo
que ele teve que pagar para se transformar e se
tornar no gênio literário que foi.
Mesmo com um grau de debilidade emocional, ficamos
sabendo ao ler a biografia de Pawel, que Kafka foi
um aluno bom, cumprindo com sucesso todas as etapas
de sua vida como estudante, e mais ainda como o
de um exemplar funcionário público
chegando mesmo a ocupar um cargo de chefia. No entanto,
subjetivamente, Kafka nunca se viu assim, e na verdade
sempre se percebeu (e acreditava firmemente nisso)
como alguém que trazia a marca da incompetência,
e mesmo diante das evidencias reais opostas, qualquer
pensamente em contrário lhe era impossível.
Na verdade, é correto dizer que psicologicamente
sua atitude era a de alguém que nutre sentimentos
de desprezo profundos por si, com uma imagem deteriorada
de si mesmo, fixando-se numa posição
de alguém esquecido e não amado.
A auto flagelação, hoje sabemos via
Freud, é uma forma que o pecador encontra
de expiar uma culpa intensa sentida subjetivamente
como uma dor, mas da qual ele não consegue
fugir. Na verdade, ele encontra nessa posição,
ou nessa fixação, um gozo inconsciente
com o próprio sofrimento que se torna obviamente
extremamente gratificante, embora não perceba.
A questão é: como essa pessoa que
se percebia tão amedrontada e fragilizada
diante da vida e diante dos outros, encontrou uma
saída para sua solidão incontornável
ante a sua própria condição?
A resposta mais simples é: escrevendo. Escrevendo
romances, contos e até peças de teatro
que nunca chegaram a ser publicadas. Que fique claro,
e é isso que a biografia de Pawel nos mostra,
Kafka não era com os poucos amigos, um choraminguento
chafurdando num comodismo. Era alguém que
tentava desesperadamente “fugir do gueto invisível”
ou do “frio interior” em que se encontrava,
e a salvação só podia ser pela
expressão pessoal através da literatura.
Seus livros mais famosos, continuam sendo, em minha
opinião, e por ordem, “A metamoforse”
que tem um dos inícios mais famosos da história
da literatura ocidental, “O processo”,
“O castelo”, “Amerika”,
e “A muralha da China”.
A literatura de Kafka já ganhou diversos
epítetos e classificações,
indo desde realista ao realismo fantástico,
até a condição de ultra moderno
ou mesmo pós moderno. De fato se pode englobar
nela cada uma dessas linhagens. Mas escrever para
Kafka não era uma forma de buscar a glória
(de forma consciente bem entendido), e sim uma forma
de se manter vivo. “Escrevo para fugir do
meu pai”, disse ele em uma carta famosa a
Max Brod. Mais do que fugir do pai, ele escrevia
para se encontrar e se manter vivo.
No entanto, penso eu, o que não é
possível diante de sua literatura, pelo menos
a meu ver, é perceber uma sociologia profética
do nazismo futuro, se bem que seja uma análise
tentadora como forma de caminho e pesquisa de investigação.
Pawel na referida biografia resiste a esse tipo
de conclusão, e percebe em Kafka como todo
judeu um ser radicalmente individualista, ainda
mais pela sua condição de extrema
timidez (diferente de Max Brod, que exercia não
só um fascínio social, como era de
uma sociabilidade frenética e compulsiva,
o que terminou em muito ajudando o próprio
Kafka). Particularmente concordo com a análise
de Pawel.
Também não consigo ver no titulo da
biografia “O pesadelo da razão”
algo que expresse em uma frase, sua vida. Mas é
inegável que Pawel, que mora em Nova York
e escreve resenhas para The New York Times Book
Rewiew, tocou em pontos cruciais da vida desse escritor
alto, esguio, elegante e que deixou para todo o
amante da literatura uma obra insuperável,
original e genial. Se ele se achava o “nada”
diante de um pai opressor e onipotente, na sua visão,
a ponto de impedi-lo de querer ver valor na própria
obra e destruí-la, no entanto, e contraditoriamente,
foi essa mesma condição que o levou
a escrever uma vasta obra e que através de
Max Brod se perpetuou e lhe deu a condição
de “ser algo”, ainda que postumamente.
Mas, como diz o poeta, há autores que já
nascem póstumos. Kafka foi um deles. Para
a sorte de todos nós.
Laurence Bittencourt Leite, jornalista
laurenceleite@bol.com.br
|