| Filosofia
e Comunicação
Por Fernando Monteiro
LEMBRANÇA
DE ANTONIONI
Li, recentemente, o autobiográfico Comincio
a capire – de um dos autênticos gênios
do cinema, o italiano (de Ferrara) Michelangelo
Antonioni. O título do livro revela bem a
surpreendente modéstia do
artista que achava que "o passado e a vida
estavam por se fazer mais entendidos (por ele) somente
na velhice".
Num ano já longínquo,
visitei Ferrara – e não me lembro de
ter feito associações da cidade enão
com a literatura. Para mim, em 1969, Ferrara e suas
fumaças se mapeavam, na moderna cultura italiana,
muito mais pela família Finzi-Contini –
do romance de Bassani – do que pela certidão
de nascimento do autor de Blow-up.
Isso foi há quase 40 anos.
Teria sido uma boa oportunidade para tentar ver
Ferrara com os olhos do grande diretor... mas os
meus – e outros olhos inquietos, no pós
68 – estavam então "enevoados",
à sua maneira, pela arrogância da juventude
que nunca quer ver nada pelos olhos alheios. Terminada
a leitura da autobiografia, tentei rever a imagem
do diretor naquela Roma da primavera de 1970: ágil
e elegante, aos 58 anos, num restaurante francês
da Via Mangili, muito longe da sua cidade e morada
agora definitiva.
O restaurante era francês
porque G. o escolhera para a nossa piccola extravagância.
Minha colega de turma no Centro Sperimentale era
filha de um romano e de uma francesa de Montpellier.
No final do almoço no La Piscine, a nossa
atenção se distraía com a mesa
logo ao lado, onde havíamos assistido o diretor
Michelangelo Antonioni ser o tempo todo servido
com grande solicitude (extensiva às duas
senhoras que o acompanhavam e que riam mais do que
a minha lisa paciência podia suportar).
O que querem? Era 1970, eu tinha
21 anos – e a minha geração
tinha raiva de tudo. Hoje, a pasmaceira não
permite que se compreenda jovens como nós
fomos, no Rio, no Recife ou em Roma.
O cineasta parecia um homem calmo,
sereno. Apenas esboçava um sorriso quando
as mulheres riam, talvez mais atento ao jogo da
luz enviesada iluminando trutas e outras iguarias
nos pratos. "Todos comem pouco quando fumam"
– dizia a minha amiga. "Por isso é
que ele é tão magro?"
Na dúvida – e antes
de pagarmos a conta bem examinada – G. se
levantou e, com o largo menu na mão, se dirigiu
a Antonioni, para... pedir um autógrafo?!
Não acreditei nos meus olhos enevoados, ou
não, pelo monte de liras gastas (e não
com trutas delicadas). Fiquei "na minha",
mal acompanhando, pelo canto do olho, a acolhida
por parte de Michelangelo, o meio sorriso mais uma
vez esboçado e o rápido sacar de uma
caneta muito grossa – uma espécie de
"pincel atômico" – retirada
do bolso a fim de assinar, com segurança,
na carta do La Piscine.
Quando G. voltou, eu perguntei porque lhe interessava
o autógrafo daquele "solene amontoador
de caixas vazias" (usando de uma definição
meio invejosa que nem sequer era minha, mas de Orson
Welles, que só admitia o gênio próprio).
Ela sabia tanto da minha admiração
pelo diretor de Cidadão Kane (e por Godard
e Straub), quanto da minha antipatia, naqueles anos,
pelo "cineasta da incomunicabilidade".
Talvez porque esse tema me parecesse um luxo no
mínimo dispensável, debaixo das botas
de 64.
Com o autógrafo de vinte
centímetros (e "quilométrica
vaidade", denunciei) na mão, a minha
amiga apenas sorriu – ainda mais serenamente
do que o Signore que acenaria de volta, para ela,
ao sairmos... jovens e imortais na primavera romana.
Faz muito tempo. Eu mudei. E o
mundo também mudou, entre cores e cinzas,
filmes memoráveis e discursos sinceros sobre
a transformação – ainda possível
– dos mundos que portamos todos, incomunicáveis.
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