Filosofia e Comunicação

 

O Samba é uma Crônica

Em “Literatura e Sociedade”, Antonio Candido, constata que “as melhores expressões do pensamento e da sensibilidade têm quase sempre assumido, no Brasil, a forma literária” (P.119).

Sua constatação visa construir a tese de uma “inflação literária” (P.151) em nossa formação social. Segundo ele, “o prestígio das humanidades clássicas e a demora da irradiação do espírito científico” teriam gerado uma “fraca divisão do trabalho intelectual” (P.120), que levaria nossa sociologia, surgida no início do Séc XX, de “Euclides da Cunha a Gilberto Freire a aparecer mais como ‘ponto de vista’ do que como pesquisa objetiva da realidade”... leia mais >>

   
 

Escrever e escrever

É conhecida a declaração de Valéry segundo a qual o autor de Variété jamais escreveria um romance porque não poderia escrever uma frase como “A Marquesa saiu às cinco da tarde”. O que significa uma frase como essa em um romance? Grande parte dos romances contém acontecimentos, encadeados numa determinada lógica temporal e num espaço definido; com efeito, para Barthes um romance é feito de “momentos de verdade” - a “verdade do afeto”, como a morte da avó do narrador na Recherche proustiana, ou a morte do velho príncipe Bolkonski em Guerra e paz -, e todo um trabalho de escrita como que apenas preparatório (dilatatório, adiador) para esses momentos de alta intensidade. Assim, a frase que tanto irritava Valéry pode ser considerada como sendo parte da composição do romance, uma parte como que preparatória, necessária, nesse tipo de romance, para o surgimento das passagens de alta intensidade, os momentos de verdade de que fala Barthes... leia mais >>

   
 

Instruções posteriores

Venham, minhas canções, vamos expressar nossas paixões mais básicas.
Vamos expressar nossa inveja do homem com um trabalho regular e nenhuma preocupação com o futuro.
Vocês são muito vãs, minhas canções.
Receio que terão um péssimo fim.
Vocês vagabundeiam pelas ruas, Vocês demoram-se nas esquinas e paradas de ônibus,
Vocês não fazem quase nada
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Sartre: sobre o poeta

Os poetas são homens que se recusam a utilizar a linguagem. Ora, como é na linguagem, concebida como uma certa espécie de instrumento, e através dela, que se opera a busca da verdade, não se deve imaginar que eles tencionem discernir ou expor a verdade. Tampouco pretendem nomear o mundo e, na realidade, não nomeiam absolutamente nada, pois a nomeação implica um perpétuo sacrifício do nome ao objeto nomeado ou, para falar como Hegel, nela o nome se revela o não-essencial, ante a coisa que é essencial. Eles não falam; tampouco se calam: é outra coisa. Já se disse que eles queriam destruir o verbo por acoplamentos monstruosos, mas é falso; pois seria necessário então que eles já estivessem lançados no meio da linguagem utilitária e que buscassem dela retirar as palavras por pequenos grupos singulares, como por exemplo “cavalo” e “manteiga”, escrevendo “cavalo de manteiga”... leia mais>>

   
 

Por que você escreve?

Por muitos meses o cotidiano parisiense “Libération” preparou um número especial que saiu a 22 de março (1985). A escritores de todo mundo foi feita a pergunta: “Por que você escreve?” O questionamento trazia de volta um precendente histórico: um número de novembro de 1919 da revista Littérature de Breton, Aragon e Soupault. A mesma pergunta era feita então, em uma época em que cataclismas, desmoronamentos, desconcertavam não somente a arte e a literatura, mas todos os aspectos da vida e do pensamento. Esta referência estava contida no convite do “Libération” aos interpelados e não sei se visava estabelecer um paralelo entre aquela época e a nossa, depois que os anos sessenta haviam assinalado, sobretudo na cultura francesa, um impulso de inovações fundamentais (na qual a noção écriture era um dos campos de batalha), e depois o mais recente desmembramento de todos os radicalismos do pensamento. Basta este confronto entre a primeira e a última década do século, para fazer sentir a nossa época como submissa e cinza, seja nos impulsos inovadores seja naqueles normalizadores; mas a grande novidade era que, por conta daquele andamento mais calmo (pelo menos aparentemente), não nos sentíamos de fato entristecidos, nenhuma nostalgia de época mais movimentada se aproximava nem mesmo por um instante a nossa mente, tanto éramos convencidos de que não podíamos esperar por surpresas desagradáveis... leia mais >>

   
 

Primeira Bienal Internacional de Poesia

Talvez só a poesia salve Brasília. Repito esta frase desde que fiquei sabendo da realização aqui, de 3 a 7 de setembro, da I Bienal Internacional de Poesia. A pretensão de Antônio Miranda, diretor na Biblioteca Nacional, professor da UnB e organizador do encontro é reunir as novas tendências da poesia contemporânea brasileira e internacional escrita... leia mais >>

   
 

Substantivo Plural – Informação, Cultura e Idéias
(DA REDAÇÃO )

Foi necessário apenas um ano para que o Substantivo Plural, site de informação, cultura e idéias, se tornasse o mais prestigiado e dinâmico espaço de cultura literária do Nordeste. O Substantivo acaba de completar um ano de existência e já se firma como um dos mais inovadores do país.

Seja para fugir do tédio praieiro que enverga a vontade de não sair da rede e do livro, seja como forma de resistência cultural ao sul-maravilha que, míope, não enxerga nem divulga devidamente as produções culturais nordestinas... leia mais >>

   
 

Teoria da inspiração
(Braulio Tavares)

Não tem pra onde correr.  Toda vez que um cineasta, teatrólogo, escritor, etc. dá uma entrevista, lá vem a pergunta de sempre: “E de onde vem a inspiração?”   Eu entendo e compartilho o drama dos coleguinhas da imprensa, que todos os dias são forçados a fazer uma prancheta inteira de perguntas a desconhecidos.  Mas isso não me poupa do suspiro resignado diante desta questão específica, que, caso vocês não saibam, é uma das mais desnecessárias entre as que abordam a criação artística..

A inspiração, para o sujeito que cria, é o óbvio, é o inevitável, é o mais-que-possível. Um leigo deve pensar que um artista é um sujeito igual a todo mundo, que acorda, escova os dentes, dedica-se a tarefas rotineiras, e de repente é possuído por um espírito, ou atingido por um raio, e passa a produzir febrilmente uma obra de arte, antes que aqueles minutos de iluminação mística se dissolvam no ar.  Concordo que de vez em quando acontece algo assim, mas, creiam-me, isto é um acesso eventual, e o processo normal da inspiração se dá por canais muito diferentes.  Perguntar a um artista de onde vem a inspiração é como perguntar a um casal em lua-de-mel de... leia mais>> 

   
 

Pecados da omissão
(Alberto Manguel)

Um leitor pode definir-se pelo que lê como pelo que recusa ler. “Está aí como ameaça, não como leitura”, dizia Severo Sarduy de um exemplar de Os Ciprestes crêem em Deus que alguém havia deixado sobre sua mesa. Mark Twain se ufanava de não haver lido nem Madame Bovary nem Orgulho e preconceito. "A melhor maneira de começar uma biblioteca”, aconselhou, “é omitir as obras de Jane Austen". "Não me desloco nunca sem meu exemplar de Clarissa", explicava Evelyn Waugh quando o viam tomar o trem com a volumosa novela de Richardson debaixo do braço. "Me serve para manter a porta entreaberta"... leia mais >>

   
 

Poesia e pensamento
(Chantal Maillard )

A pergunta pela relação entre poesia e pensamento é sempre tema dos encontros poéticos. Aparentemente, o tema rende muito, mas perguntamos se esta relação não será alimentada de falsas dicotomias inventadas que, ao serem nomeadas, para poder falar de algo, acabam falando, ao fim e ao cabo, apenas delas mesmas.
Obtive a resposta de repente, enquanto lia Fiat umbra (Valencia, Pre-Textos) de Isabel Escudero quando, ao dar-me conta de que levantava os olhos do livro e ficava com o olhar perdido depois da leitura de um de seus fragmentos, recordei um exemplo que colocava Miguel Palacios em suas aulas de Ética: aquele que lê filosofia, dizia ele, levanta às vezes a cabeça, como faz um pássaro ao beber água. Assim, o lido se filtra como água e se assenta no entendimento... leia mais>>

   
 

Coleção de Areia
(Ítalo Calvino)

Há uma pessoa que faz coleção de areia. Viaja pelo mundo, e quando chega a uma praia marinha, às margens de um rio ou de um lago, a um deserto, a uma lande, recolhe um punhado de areia e leva consigo. A seu retorno esperam-na, alinhados em longas prateleiras, centenas de frascos de vidro, entre os quais a fina areia cinza de Balaton, aquela branquíssima do Golfo de Sião e aquela vermelha que o curso do Gâmbia deposita abaixo pelo Senegal, manifestam a sua não vasta gama de cores esfumaçadas e revelam uma uniformidade de superfície lunar, mesmo através das diferenças de granulosidade e consistência; do cascalho branco e negro do Cáspio que parece ainda ensopado de água salgada aos diminutos pedregulhos de Maratea, brancos e negros também esses, à sutil farinha branca salpicada de gotículas violetas de Turtle Bay, próximo a Malindi no Kênia... leia mais>>

   
 

Jornalismo e narração: diálogos para o século XXI
(Tomás Eloy Martínez)

Nós, seres humanos, perdemos a vida buscando coisas que já encontramos. Todas as manhãs, em qualquer latitude, os editores de jornais chegam aos seus escritórios perguntando-se como vão contar a história que seus leitores têm visto e ouvido dezenas de vezes na televisão ou no rádio, esse mesmo dia. Com que palavras narrar, por exemplo, o desespero de uma mãe a quem todos têm visto chorar ao vivo diante das câmeras?... leia mais >>

   
 

O Elogio da Dúvida - Resenha-ensaio de "O Elogio do Amor", de Jean-Luc Godard
( Lauro José Maia Marques)

"O elogio do amor", o elogio "de alguma coisa". A frase aparece, entrecortada, em letras brancas sobre a tela preta, insistentemente interrompendo a fruição contínua do filme. Desde os primeiros minutos do longa-metragem, de 2001, Jean-Luc Godard joga com a ambiguidade e o descontínuo, palavras-chave do cinema desse autor... leia mais>>

   
 

El Tsunami emocional de la bossa nova
(Carlos Galilea)

Mira qué cosa más linda/ más llena de gracia/ es la chica/ que viene y que pasa/ con un suave balanceo, camino del mar...". Cinco minutos quince segundos grabados el 18 de marzo de 1963 en un estudio de Nueva York por Phil Ramone. El saxo tenor de Stan Getz, el canto y la guitarra de João Gilberto, el piano económico de Antonio Carlos Jobim y la voz suave de Astrud Gilberto cantando en inglés... leia mais>>

   
 

O “Olho por olho” de Tropa de Elite
(Bárbara Freitag)

Encontrei Vladimir Carvalho, amigo e colega de muitos anos, que veio de Brasília para lançar o seu documentário “O engenho de Zé Lins”. Satisfeito com a repercussão que o seu filme sobre a vida e obra de José Lins do Rego tivera entre o público e nos jornais cariocas, Vladimir fez uma recomendação enfática: “Não deixe de ver o filme do José Padilha, Tropa de Elite ! É chocante! Impactante !”. O filme baseia-se no livro “Elite da Tropa” de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel, que também fez o roteiro do filme...leia mais>>

   
 

Design, comunicação e arte: áreas afins, porém estanques
(Ana Beatriz de Paiva Costa Barroso)

Se fosse possível romper a barreira erguida há tempos entre as várias disciplinas... Se fosse possível realmente vivificar o discurso da interdisciplinaridade... Se fosse possível deixar de lado tantos preconceitos... Por que, apesar do discurso, há pouco intercâmbio na prática? Por que o intercâmbio aclamado por tantos é realidade de poucos? Sem querer responder essas questões, vamos simplesmente falar dessas três áreas vizinhas, mas ainda meio isoladas, para que talvez elas possam sair de mãos dadas por aí, cirandando pelas ruas....leia mais>>

   
 

Jornalismo e narração: diálogos para o século XXI
(Tomás Eloy Martínez)

Nós, seres humanos, perdemos a vida buscando coisas que já encontramos. Todas as manhãs, em qualquer latitude, os editores de jornais chegam aos seus escritórios perguntando-se como vão contar a história que seus leitores têm visto e ouvido dezenas de vezes na televisão ou no rádio, esse mesmo dia. Com que palavras narrar, por exemplo, o desespero de uma mãe a quem todos têm visto chorar ao vivo diante das câmeras? Como seduzir, usando uma arma tão insuficiente como a linguagem, pessoas que têm experimentado com os olhos e com o ouvido todas as complexidades de um feito real?...leia mais>>

   
 

A Adaptação Literária para Cinema e Televisão
(Jorge Furtado)

Transposição da literatura para a linguagem audiovisual. Vou comentar o assunto sob dois pontos de vista: o primeiro, técnico ou estético. O segundo, ético. Quanto aos aspectos estéticos, há muitas diferenças entre a linguagem escrita e a linguagem audiovisual. Eu vou tentar lembrar aqui três dessas diferenças...leia mais>>

   
 

A Razão Poesia
(Gustavo de Castro)

O cogitar sobre a poesia insemina-se na história do pensamento a partir de um caminho crítico adotado por Platão, muito embora não possamos afirmar que um sentido semelhante não estivesse também presente nos pré-socráticos. Por não parecer uma preocupação dos pré-socráticos tal caminho faz com que suponhamos que este cogitar estava mais para uma razão com a poesia, uma razão sensível, do que uma razão sobre a poesia. Essa diferença...leia mais>>

   
 

Da moral as éticas
(Michel Maffesoli)

É sempre necessário, com os problemas essenciais, saber distanciar-se a fim de compreender melhor a realidade empírica. Buscar as ascendências mais secretas, para que as palavras usadas possam tornar-se palavras operantes. Não há dúvida de que o invisível é o núcleo central a partir do qual se organizam as coisas humanas. “Centralidade subterrânea”, eu havia dito, que é necessário saber decodificar em meio à efervescência dos fenômenos explosivos ou à banalidade do cotidiano...leia mais>>

   
 

Nos Limites da Imperfeição
(Luiz Iasbeck)

Filosofia e literatura são duas atividades exclusivas dos seres humanos, animais culturais que buscam, respectivamente, conhecer o mundo e transcender aquilo que conhecem pelo exercício criativo da imaginação...leia mais>>

   
 

O Paradigma da Transpoesia
(Michel Camus)

Nós não sabemos o que é a poesia. Os conceitos unívocos que antes eram chamados de "o mundo", "a realidade", "a natureza", "a poesia" tornaram-se ingenuamente reducionistas desde que os pesquisadores tomaram consciência da pluralidade dos mundos e das culturas, da complexidade crescente dos níveis de realidade e dos níveis de percepção que escapam à lógica aristotélica e à dialética binária... leia mais >>

   
 

Sexo no fio da navalha
(Jurandir Freire Costa)

Michel Foucault, em 1981, afirmou que Peter Brown -historiador da mentalidade cristã na Antigüidade latina e na alta Idade Média- chamou sua atenção para o fato de a sexualidade ter se tornado o sismógrafo da subjetividade ocidental. Foucault, ao citar Brown, queria mostrar como o sexo veio a se transformar no substrato de nossa vida moral... leia mais >>

   
 

¿Qué es comunicación?
(Niklas Luhmann)

Mi propósito es criticar lo que se entiende comúnmente por comunicación y reemplazarlo por una versión diferente. Pero, antes de empezar, querría hacer algunas consideraciones sobre el contexto científico en el que este cambio debe cumplirse. Puedo comenzar desde un hecho incuestionable. La bien conocida distinción entre psicología y sociología, y por más de cien años de investigación especializada, ha llevado a la idea de que los sistemas psíquico y social no pueden ser integrados más allá de un punto. Ningún investigador puede examinar todo el cuerpo de conocimiento en cada una de estas disciplinas. Con todo, esto resulta claro, en ambos casos tenemos que ver con sistemas que poseen estructuras altamente complejas y cuyas dinámicas, para cualquier observador, son opacas e imposibles de ser reguladas. No obstante, siempre hay conceptos y teorías que ignoran esto o tratan de ocultarlo sistemáticamente. En Sociología, los conceptos de acción y comunicación pertenecen al residuo de un intento tal...leia mais>>

   
 

O encontro do romance com a reportagem
(Carlos de Souza)

Quando Tom Wolfe surgiu aos olhos do mundo vestido como um dândi do século XIX, a face do que ficou conhecido como New Journalism – uma nova forma de escrever longas reportagens – ganhou contornos de uma sofisticação forçada, como as roupas do extravagante jornalista. Esse novo jornalismo, no entanto, tem nuanças mais delicadas que podem ser vistas nas maneiras diferentes de fazer a mesma coisa e que se espalhou pelo mundo ganhando tonalidades locais. O que se queria fazer, era uma nova maneira de abordar os assuntos sem a aridez da reportagem tradicional, excessivamente objetiva e que não dava lugar para o detalhamento, o corte psicológico, a observação sociológica. Tom Wolfe conta que inaugurou esse estilo de fazer jornalismo quando cobria uma corrida de carros na Califórnia para a revista Esquire e percebeu que os proletários, camponeses e pequenos burgueses estavam criando um novo estilo de vida para a América, com seus carros, roupas e esculturas de néon...leia mais>>

   
 

Os poetas falam frígio - À procura da metáfora primordial
(Luiz Martins da Silva)

O que será, de fato, a criação primordial?

      Aquela que vem da origem, do berço, que nasce conosco, porque assim o somos, é da nossa natureza. É o nosso elo com o início e que faz parte de uma memória imemorial.

      Três aspectos devem ser considerados de início: o indivíduo, o social e o devaneio. Por parte do indivíduo, há uma circunscrição ligeira na história da espécie, o que o torna muito mais a espécie. Tem, no entanto, as suas gravações enquanto experiências singulares. O social, por seu lado, é mais que a soma de indivíduos, é uma sedimentação constante, enquanto durar a espécie
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