Filosofia e Comunicação


Por Alcimar Fernandes Pereira
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UNUSMUNDUS OU CRER PARA VER

“A Harmonia invisível é superior à visível”- Heráclito – filósofo grego que viveu no século VI antes de Cristo.
“A Realidade é irracional” - Hegel

“A humanidade só saiu da barbárie mental primitiva quando se evadiu do caos das suas velhas lendas e não temeu mais o poder dos taumaturgos, dos oráculos e dos feiticeiros. Os ocultistas de todos os séculos não descobriram nenhuma verdade ignorada, ao passo que os métodos científicos fizeram surgir do nada um mundo de maravilhas. Abandonemos às imaginações mórbidas essa legião de larvas, de espíritos, de fantasmas e de filhos da noite – e que, no futuro, uma luz suficiente os dissipe para sempre”. Gustave Le Bon.

Esses são ainda ecos residuais do iluminismo e do positivismo. O intermezzo entre os séculos XVII a XVIII, o período das luzes, ficou historicamente conhecido como a era da razão, durante a qual tentou se lançar na lata de lixo da cultura a quase totalidade daqueles fenômenos que não pudessem ser classificados dentro dos estreitos escaninhos do pensamento conceitual – os quais, segundo o etnopisiquiatra Tobie Nathan , e restringem à chatice o pensamento ocidental” . Numa enantiodromia ou efeito reverso o século do iluminismo conteve em si a antinomia de ter sido também o século das utopias: “As utopias do iluminismo, assim como as de outros períodos da história, podem ser divididas em dois tipos: por um lado, aquelas em que o distanciamento da criação de um lugar apropriado ao exercício de imaginação do escritor, no qual ele pode refazer o mundo de acordo com seus anseios; e, por outro lado, aquelas em que o distanciamento é marcado pelo tempo, quando o autor idealiza um época diferente da sua, na qual as coisas eram ou serão, muito melhores que então. A Utopia de Thomas Morus é um exemplo clássico do primeiro tipo...” .

O projeto do Iluminismo e do Positivismo do século XIX (este uma chanchada mista de religião e filosofia) era alcançar a Iluminação pela Razão, entronizada como deusa pela Revolução Francesa e consistia basicamente num ataque ao sistema mítico chamado “Catolicismo”. Mesmo o Espiritismo de Allan Kardec e sua cópia em xerox colorida, o racionalismo cristão, receberam influências do movimento, incorporando a idéia de “fé raciocinada”, na inconsciência de que a fé e os milagres se encontrariam além do alcance da razão. “Credo quia absurdum”: o fiel como Aquino crê justo porque Deus é um conceito absurdo para razão humana: “a sabedoria de Deus é loucura aos olhos humanos”, reza o Evangelho. O iluminismo e o positivismo eram, todavia, em si mesmos sistemas míticos substitutos. A filosofia de Karl Marx, uma posterior utopia laica, foi outra antítese contraposta à Religião Católica que contraditoriamente derivou do mesmo messianismo judaico que dera origem ao cristianismo quase dois mil anos antes junto com inúmeros movimentos proféticos, como o essenismo. Previsivelmente, nenhum adepto da doutrina marxista concordará com a seguinte leitura, já que marxistas parecem ser geneticamente incapacitados de concordar com qualquer coisa além do próprio marxismo: “O messianismo judeu contém duas tendências, intimamente ligadas e contraditórias ao mesmo tempo: uma corrente restauradora, voltada para o restabelecimento de um estado ideal do passado, uma idade do ouro perdida, intimamente ligadas e contraditórias ao mesmo tempo: uma corrente restauradora, voltada para o restabelecimento de um estado ideal do passado, uma idade de ouro perdida, uma harmonia edênica rompida, e uma corrente utópica, aspirando a um futuro radicalmente novo, a um estado de coisas que jamais existiu. A proporção entre as duas tendências pode variar, mas a idéia messiânica só se cristaliza a partir de sua combinação. Elas são inseparáveis, numa relação dialética posta fortemente em evidência por Scholem :
Mesmo a corrente restauradora veicula elementos utópicos e, na utopia, operam fatores de restauração (...) Esse mundo inteiramente novo comporta ainda aspectos que dependem claramente do mundo antigo, mas mesmo esse mundo antigo não é mais idêntico ao passado do mundo: é, antes, um passado transformado e transfigurado pelo sonho radioso da utopia”. No século XX, dois messianismos judeus se condensaram no freudomarxismo. Segundo Thierry Paquot em “A Utopia”, se a Utopia hoje tem má reputação foi justamente porque o marxismo, a mais ambiciosa das utopias, colheu um fracasso tão grande quanto sua ambição.

O demorado processo iconoclasta pelo qual ocorreu a degradação e erosão do imaginal na filosofia e epistemologia ocidentais incia-se com a hegemonia do deus único judeu mais a lógica aristotélica que influenciou Tomás de Aquino, mais o metodismo cartesiano, o empirismo, o historicismo, o cientificismo, e o malfadado positivismo. Como afirma Gilbert Durand em “O Imaginário”, essa varredura para debaixo do tapete “possibilitou o impulso enorme do progresso técnico e o domínio deste poder material sobre as outras civilizações, que atribuiu uma característica marcante ao “adulto branco e civilizado”, separando-o, assim, como sua “mentalidade lógica”, do resto das culturas do mundo tachadas de “pré-lógicas”, “primitivas” ou “arcaicas”. Jung advertia, ainda em tempo: “...Mas a nossa identificação com a consciência contemporânea do momento é tão grande, que nos esquecemos do ser “eterno”, dos fundamentos psíquicos. Tudo que existiu e continuará exstindo por mais tempo do que o vaivém das correntes contemporâneas é considerado como algo fantasioso, que deve ser cuidadosamente evitado. Mas, desta forma, caímos no mar dos perigos psíquicos, que hoje nos ameaça, que seria aquele do “ismos” intelectuais, separados de todas as suas raízes espirituas, e que sempre estabelecem conceitos, sem levar em conta o homem verdadeiro”. E se considerássemos que mesmo esse caminho tomado pela nossa civilização teria obedecido a determinações arquetipais? Segundo Schelling todos os avatares da história de um povo encontram-se prefigurados em sua mitologia. A tecnociência, a máquina, são imagens na alma humana e Homero já descrevia os trabalhos do deus Hefesto em seu vulcão sendo auxiliado por homens metálicos que ele mesmo fabricava e aos quais dava vida, antecipando a robótica.

Enquanto isso, a anômala fenomenologia que compunha o imaginário dos povos em tempos primordiais, nos quais o imaginário era real e a realidade vista como parcialmente imaginária- uma escala de significados e signos que o racionalismo positivista-iluminista, numa hipertrofia da racionalidade, tentou ocultar nas masmorras da civilização - ainda teima em protagonizar suas peripécias. O mito, “o nada que é tudo” segundo Fernando Pessoa, é perene e se renova: “Pois o ponto de partida autêntico para todo vir-a-ser da ciência, seu começo no imediato, encontra-se menos na esfera do sensível do que na esfera da intuição mítica..O exame do “vir-a-ser da ciência – compreendido no sentido ideal, não no temporal – só se completa quando indica seu surgimento e elaboração a partir da esfera da imediatez mítica e torna conhecida a direção bem como a lei desse movimento”. Mircea Eliade tem algo semelhante para dizer: “... a consciência teórica, prática e estética, o mundo da linguagem e do conhecimento, da arte, do direito e o da moral, as formas fundamentais da comunidade e do Estado, todas elas se encontram originariamente ligadas à consciência mítico-religiosa...” . Para Nietsche, “Sem um mito, toda civilização perde a sua sã e criativa força da natureza; só um horizonte delimitado por mitos pode dar unidade a todo um movimento de civilização”. Como todas as coisas tendem a tornar-se em seu contrário, Adorno e Horkheimer apontam a contradição de que “o processo de dominação da natureza pode resultar numa mais completa naturalização do homem civilizado”.

A Filosofia como Utopia

Ainda que Platão tenha sido o inventor do método dialético, a sua filosofia em si mesma era uma mitologia que “admitia uma via de acesso para as verdades indemonstráveis tais como a existência da alma, o além, a morte, os mistérios do amor”... a primeira utopia “onde a dialética bloqueada não consegue penetrar, a imagem mítica fala diretamente à alma” A idéia de um outro mundo superior anterior ou futuro é o ponto comum entre o cristianismo e a filosofia platônica, pois ambas foram inspiradas pela imagem arquetípica de Orfeu, de quem Jesus herdou a imagem do “bom pastor”. Hegel chegou a suspeitar de que a filosofia só teria interesse para o povo se os filósofos conseguissem “tornar estéticas, isto é, mitológicas, as idéias filosóficas”. Schlegel, pouco depois, manifestava a sua crença em que se fazia necessária a criação de uma nova mitologia”, mais ou menos como os românticos sonharam criar um novo catolicismo do qual Novalis seria o novo Cristo. No começo de sua carreira um fervoroso Jung tentava convencer Freud de que a psicologia poderia servir para resgatar a alma perdida do cristianismo racionalizado pela escolástica. O pensamento de Hegel, aparentemente escrito num papel de pão era que “A nova mitologia deverá ser elaborada pela mais inescrutável profundidade do espírito; deve ser a mais artística de todas as obras de arte, já que terá abranger as demais, ser um novo recipiente para a antiga, primitiva e eterna fonte da poesia e ser, também, ela própria, a essência da poesia infnita, que resguarda os embriões de todas as outras poesias...Talvez seja o caso de sorrir dessa poesia mística e da desordem que poderia resultar da multidão e da profusao das poesias. No entanto, a beleza suprema, aliás a ordem suprema, é apenas a do caos, e precisamente o de um caos que espera só contato do amor para manifestar-se num mundo harmônico, que era, também, o da mitologia e da poesia antigas. Porque a mitologia e a poesia são um só coisa, são indissociáveis”..

A Arqué ou Matéria do Mundo

A filosofia pré-socrática buscava distinguir a Arché, o elemento primordial que teria dado forma a todas as coisas do mundo visível para se evitar o infinito causal impensável. Tales de Mileto, o primeiro a postular essa noção, dizia ser a água (hydor) o elemento presente em todas as coisas. Outros sucessores de Tales, Anaxímenes e Anaximandro, adotaram o ar e inventaram o apeiron (algo ilimitado, indefinido, subjacente à própria natureza); Heráclito acreditava ser o fogo; Demócrito o átomo e assim outros como Empédocles que dizia ser: terra, água, ar e fogo. A química hoje supõe que o hidrogênio esteja presente em todo o universo. Estes filósofos buscavam um principio básico permeando toda a realidade, um elemento natural, inaugurando intuitivamente a ciência.

Com o advento da nova física (representada por Amit Goswami dentre outros nomes) que desdobrou e expandiu as implicações epistemológicas da física einsteniana; da psicologia do inconsciente de C.G. Jung, que deram suporte a uma nova antropologia do imaginário representada principalmente por Gilbert Durand e seus discípulos, o ponto de vista de Le Bon no primeiro parágrafo foi contrariado. A ciência mais avançada, como a psicologia analítica de Jung e a semiótica de Pierce, aceitam pós-modernamente a existência de uma dimensão que é existente, ainda que não “real”. A matemática e a física sugerem a possibilidade (não probabilidade) da existência de universos paralelos alternativos que implicaria na necessidade de no mínimo doze dimensões paralelas à nossa. O Paradigma Holográfico de Karl Pribram propõe que o universo está sendo criado pela nossa consciência coletiva, representando a psique o tal elemento primordial de toda a realidade. Os quatro elementos ainda seriam símbolos da consciência manifesta (fogo e ar) e do inconsciente (terra e água), litoral incógnito do qual nada se sabe além dos fenômenos que produz tais como os sonhos, os mitos e as psicoses individuais ou coletivas.

Se se pudesse resumir a psicologia junguiana, que criou um inteiro léxico para a fenomenonologia do inconsciente, a um item essencial este é a ênfase na complementaridade entre psique e matéria como aspectos de uma mesma realidade que em si é psicóide, ou seja, parcialmente material e psíquica, o que a física de partículas evidencia experimentalmente. O conceito de “unusmundus” era conhecido pelos antigos alquimistas, segundo o qual a realidade transcorre num ambiente limítrofe entre a alma (psiché) e a matéria. Jung e Einstein tiveram vários encontros onde geralmente não chegavam a nenhum consenso, ambos terminando irritados um com o outro. Jung achava Einstein “burro” e Einstein provavelmente considerava Jung confuso: parece inegociável a interlocução entre hemisférios direitos e esquerdo e acabamos convivendo no mesmo planeta em mundos separados e complementares. A relação com o mundo implica sempre numa equação pessoal em que o tempo e espaço são interpretados pela psique individual. Tu vives num mundo de números? Que interessante! Eu vivo num mundo de símbolos. Só é real para nós o que percebemos com os sentidos – mas os nossos sentidos só conseguem perceber aquilo em que cremos.

Os mitos não significariam velhas lendas ultrapassadas - mas representariam a projeção de conteúdos arquetípicos do inconsciente coletivo, expressão eternamente atual imagens primordiais inatas, geneticamente herdadas que são modeladores da personalidade e da consciência, sendo por conseguinte uma espécie de reservatório infinito de toda criatividade humana, uma “mainframe” continente cujo conteúdo são inteligências de forma. Jung reconhecia que a origem dos arquétipos é um segredo metafísico. Ele escreveu um livro sobre o mais espetacular de todos os mitos, o OVNI Jung acreditava que o “mito moderno sobre coisas vistas no céu” era indicativo de profundas transformações acontecendo no inconsciente coletivo. O OVNI, ao mesmo tempo em que representa a ameaça de termos que nos defrontar com uma alteridade irreconhecível, também aponta para a redenção. Os discos voadores significariam para o homem do final do segundo milênio o que os anjos significavam para o homem do final do primero. A idéia do inatismo dos arquétipos causa repulsa aos racionalistas, mas esse é um problema que eles terão de resolver.

O pensamento do etnopsiquiatra Tobie Nathan, o do físico hindu Amit Goswami, do mitólogo Joseph Campbell e do psiquiatra e psicoterapeuta C.G. Jung têm em comum o reconhecimento do impacto do existente sobre o real ou da realidade daquilo que a semiótica reconhece existir ainda que não possa ser tocado. O físico David Bohm, vencedor do prêmio Nobel de Física, acredita que vivemos numa realidade explicada desdobrada a partir de outra realidade, a implicada. Para o inglês Rupert Sheldrake aquilo que ele chama de “campos morfogenéticos são estruturas invisíveis que se estendem no espaço-tempo e moldam a forma e o comportamento de todos os sistemas do mundo material”. O filósofo judeu-alemão Ludwig Wittgenstein concluiu pela idéia de que o sentido do mundo só pode estar em outro mundo. Sua filosofia da linguagem descobriu o inaudito do indizível, o além das palavras, que talvez seja o próprio Além. Freeman Dyson tem um livro com um título intrigante; “O Universo é infinito em todas as direções”. Não é possível pensar o impensável, mas é possível e talvez se faça urgentemente necessário que pensemos o invisível como recomenda Nathan.

O mundo não é mais o mesmo ou fomos nós que mudamos? Será que as coisas já não parecem ser as mesmas exatamente porque nós mudamos? Quem sabe a evolução da ciência, que ocorre a contragosto dos fundamentalistas religiosos (enquanto a ciência tem seus próprios fundamentalistas) nos leve a entender que o “novo céu e a nova terra” prometidos são este mesmo céu acima de nós e a mesma terra sob nossas solas de borracha, apenas vistos de um novo e outro modo por um novo, outro - e mesmo homem?

Quem viver e souber ver verá.

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1 Alcimar Fernandes Pereira é publicitário e poeta.
2 Nathan Tobie, in “Pensar o Invisível”, in Casa das Musas
3 Carl Gustav. Jung, in “Um Mito Moderno Sobre Coisas Vistas no Céu”, Vozes
4 Cassirer, Ernst, in “Filosofia das Formas Simbólicas” - Martins Fontes
5 Eliade, Mircea, in “Linguagem e Mito”, Perspectiva
6 Cit. p. Roberto Calasso, in “A Literatura e os Deuses”.
7 Adorno/Horkheimer, in “Dialética do Esclarecimento”, Jorge Zahar
8 Durand, in “O Imaginário”- DIFEL

i O termo Iluminismo classifica certas tendências gerais comuns a todos os iluminismos, nomeadamente, a ênfase nas idéias de progresso e perfectibilidade humana, assim como a defesa do conhecimento racional como meio para a superação de preconceitos e ideologias tradicionais.
Quanto ao Positivismo, em linhas gerais, propunha à existência humana valores completamente humanos, afastando radicalmente a teologia e a metafísica (embora incorporando-as em uma filosofia da história).
ii Moscateli, Renato, in “Tempo e Espaço Projetados”, Revista Leituras da História nº 4, ano I
iii A tradução da palavra alemã “Aufklärung” (“Enlightment” em inglês), traduzida para Iluminismo em português é esclarecimento e “iluminação”, como aquela que os gurus hindus e budistas esperam alcançar
iv Scholem, Gershom, erudito em cultura hebraica
v Lowy, Michael – Romantismo e Messianismo – Editoria Perspectiva.
vi Durand recebeu muita influência de C.g. Jung tendo permanecido, totavia, um racionalista e Jung tendo sido necessaria um iluminista kantiana e hegeliano ao seu modo.




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Alcimar Fernandes Pereira é publicitário e poeta.

 

 
 

 

 
 
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