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Entrevista com Marcelino Freire
por Lívio Oliveira
Marcelino Freire nasceu em 1967, na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de “EraOdito” (Aforismos, 2ª edição, 2002), “Angu de Sangue” (Contos, 2000) e “BaléRalé” (Contos, 2003), todos publicados pela Ateliê Editorial. Com o livro “Contos Negreiros” (Contos, 2005) publicado pela Record, ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura, em 2006. Em 2002, idealizou e editou a Coleção 5 Minutinhos, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias “Geração 90” (2001) e “Os Transgressores” (2003), publicadas pela Boitempo Editorial. Mantém o blog www.eraodito.blogspot.com, onde você poderá conhecer mais sobre a vida e obra do escritor.
L.O. Que incômodos e satisfações há em tratar de temas absolutamente presentes na barbárie atual brasileira (a violência, a corrupção, o preconceito, a miséria moral e econômica)?
M.F. Eu não escolho os temas, sempre falo isto. É que a coisa está aí, para quem quiser ver. Não consigo ficar alheio ao mundo à minha volta. E o mundo anda uma porrada. Meu texto e meu juízo são afetados por isso. Não deixa de ser um incômodo. Satisfação, creio, só na hora de resolver um conto. O alívio que me dá no peito quando termino o texto. Quando exorcizo os cachorros do peito. Eu me vingo escrevendo. Alivio certo peso medonho, sei lá.
L.O. Que preconceitos ainda persistem e precisam ser duramente atacados no Brasil?
M.F. É meio maluco eu dizer, mas acho que o preconceito faz parte, assim, visceral do ser humano. A gente aprende com o preconceito. Ele não pode, creio, desaparecer. Aliás, ele não desaparece. Ele é só substituído por outros. Será? Será que estou viajando muito nesta resposta? Claro que devemos, como diz a propaganda governamental, respeitar as diferenças. Não gosto de julgar ninguém. Mas sinto, vendo a coisa de um outro ângulo, que o preconceito me alimenta. Eu fico me questionando, me confrontando o tempo inteiro por causa dele. Tem dia em que eu acordo burguês, racista, homofóbico... E eu fico com ódio de mim. Fico com pena de mim. E duramente me ataco, confesso.
L.O. Que linguagens precisam ser acionadas para a conquista do público leitor da atualidade?
M.F. "Conquistar" leitor é coisa que me parece meio dirigida. Perigosa, sei lá. Se não eu escrevo pensando nisto. Quero dizer que, na hora de escrever, eu não penso no leitor. Eu penso depois, no pós-livro. Quero arregimentar o maior número de leitores que eu puder no pós-livro. Expressão engraçada esta: "pós-livro". Enfim... Não vou ser hipócrita de dizer que quero ser um escritor-não-lido. Eu quero ser lido, sim. Mas essa preocupação vem depois, entende? E a conquista se dá no cara a cara. Enfim... Pensando bem: o leitor é quem conquista o escritor que ele quiser. Escolhe o escritor que ele quer, creio.
L.O. O palavrão cumpre um papel literário?
M.F. "Palavrão" é palavra. Como palavra, é elemento de escrita. Se o "palavrão" aparece apenas como "palavrão", aí está o problema. Tudo tem de aparecer e estar como "palavra". O escritor trabalha com palavra, não trabalha com adjetivo, advérbio, substantivo, palavrão. Enfim...
L.O. Que público leitor está em suas metas ou nos parâmetros voluntários em que se situa a sua obra?
M.F. Mais uma vez aviso: eu, como escritor, não posso pensar em "metas". Quem pensa assim é gerente de banco, vendedor de concessionária. Eu sou escritor e tenho de escrever. Posso, é claro, pensar mais nisto depois do livro pronto, tentar "atingir" alguém com a minha palavra. Mas, enfim. Tenho preguiça de pensar sobre isto. Fica parecendo igreja... arrebanhando os seus fiéis. Tô fora. Esquece... Deixemos que a coisa venha mesmo "voluntariamente"...
L.O. Que importância existe nas feiras, festas e outros eventos que cercam a literatura?
M.F. Quanto mais a literatura estiver em foco, circulando por aí, melhor. A literatura é a prima pobre das artes. Vamos dar uma importanciazinha à coitadinha. Não tenho nada contra festas e bailes e baladas. Outra: mais coisas assim acontecendo, o escritor pode viver, um dia, direta e indiretamente do que escreve. Não vejo mal nenhum nisto. Lembrei de uma frase que eu disse um dia: "Minha literatura, esta não tem preço. Para todas as outras coisas, uso MasterCard". Mas por que é que estou repetindo isto mesmo?
L.O. Como construir um projeto editorial no Brasil (como escritor e como editor)? Que percalços podem existir no caminho?
M.F. Mais uma vez uma pergunta casca-de-banana. Não estou dizendo que seja culpa do entrevistado. Talvez seja a minha consciência de entrevistado que esteja em xeque. Ave! Não sei como "construir" um projeto editorial. Talvez os editores saibam melhor. Esta pergunta merece uma resposta mais empresarial. Eu sou apenas um escritor. Será? Estou em dúvidas...
L.O. Quando o caminho do escritor começa em uma região menos favorecida economicamente as dificuldades editoriais tomam que grau?
M.F. A gente trabalha sempre com dificuldades. Repito: o que é ser um escritor? E ser um escritor no Brasil? E ser um escritor contemporâneo? E ser um escritor que mora longe? Fora dos grandes centros? Vixe! Me dá, juro, uma preguiça de pensar. Uma dor, sei lá. Eu prefiro correr e fazer. Agitar as coisas do meu modo. Para cada dificuldade uma arma em punho. Lutemos, lutemos...
L.O. Que móvel o levaria a escrever também para crianças?
M.F. Eu nunca escrevi para crianças. A não ser, uma adaptação que fiz da história de Robinson Crusoé. Detestei fazer. E tem uma história que fiz com a minha amiga Adrienne Myrtes. Também não curti muito fazer. Estou, faz um tempo, reunindo o que eu chamo de "poeminhas sujos". Mas não sei se publico. Preciso criar maturidade suficiente para isto...
L.O. Quais são suas principais e mais ancestrais referências literárias?
M.F. Vêm-me logo à cabeça Manuel Bandeira, o primeiro poeta que li, aos 9 anos. E vem Graciliano Ramos. Vem Jean Genet. Gosto de dizer que a minha mãe cantando Luiz Gonzaga muito me influenciou. Gonzagão me influenciou. Tudo me influencia. Uma bula de remédio, um filme na TV, um pôster na internet, uma piada de mau gosto...
L.O. Com que formas de arte você busca casar o seu fazer literário?
M.F. Eu não "busco" casar. As coisas vão casando. Porque estão no sangue. O teatro muito me influenciou. Comecei escrevendo para teatro. Meus textos têm forte apelo dramático. Trazem isso no DNA.
L.O. Como isso se dá na prática?
M.F. Eu queria muito ser ator. Aí meus textos carregam, hoje, essa frustração. Eu sou ator, mais que autor, quando escrevo.
L.O. Quem produz as boas novidades na literatura brasileira?
M.F. Tanta gente tem escrito coisa boa por aí. Para ficar em um nome bem fresquinho, mais recente, que eu acabei de descobrir, cito o escritor campineiro Maurício de Almeida. Ele é autor de um livro de contos chamado "Beijando Dentes". Saiu pela Editora Record. Ele acabou de vencer, com este livro, o Prêmio SESC de Literatura. É uma obra-prima esse livro dele. Tem voz, fortaleza própria.
L.O. Por que buscou o minimalismo do conto na publicação de um livro que elenca "Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século"?
M.F. Eu sempre busco o "menor", o "menos", a "concisão". Adoro. Não importa se você esteja escrevendo um romance de mil páginas ou um livro de micronarrativas. Você tem de dizer logo o que quer e ir embora. Não encher o juízo do leitor. Nem o seu... Eu organizei este livro, sobretudo, por diversão. Gostei do desafio que lancei a mais de cem escritores. Gosto dessas provocações...
L.O. Quais são os projetos que você tem movido no momento?
M.F. Eu vou lançar agora em agosto mais um livro de contos, também pela Record. Chama-se "RASIF - Mar que Arrebenta" (com gravuras do artista paulistano Manu Maltez). E estou escrevendo contos supercurtos. Coisa nanica mesmo, que estou colecionando para o futuro. Minha idéia é fazer 1.001 deles. Estou já com 71. Falta muito. Talvez passe a vida inteira rascunhando esse projeto, a vida inteira insistindo nessa coisa "pequena".
L.O. Que expectativas tem sobre a participação próxima na Feira/Festa do Livro de Mossoró?
M.F. Quero fazer novos amigos. Ouvir pessoas novas. Reencontrar meus amigos da editora Jovens Escribas. E, principalmente, quero saber qual o melhor boteco de Mossoró. E aí a gente conversa melhor. Obrigado aí pela entrevista, abração e té!
L.O. Pretende vir a Natal? Com quem deseja se encontrar aqui para as trocas literárias?
M.F. Eta! Eu pensei que a pergunta de cima era a última. Juro. Pretendo ir a Natal, sim. Tenho um irmão que mora aí. Vou almoçar com ele. E, repito, vou rever os meus amigos Jovens Escribas. E vou rever um amigo recente, o Alexis, jovem que foi um dos vencedores do concurso de contos da OFF-FLIP, em Parati, da qual fui um dos jurados. Esse cara promete. Fiquem ligados. Agora fui. Mais uma vez obrigado!
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