Entrevista com Leda Tenório da Motta

por Lívio Oliveira


Leda Tenório da Motta é pesquisadora do CNPq Nível 2. Possui graduação em Letras Modernas pela USP, mestrado em Semiologia Literária pela École des Hautes Etudes en Sciences Sociales e doutorado em Semiologia Literária pela Université de Paris VII. Fez pós-doutorados na Université de Paris VII e no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Estudou com Roland Barthes, Gérard Genette e Julia Kristeva. É professora da PUC/SP, onde vem se dedicando aos objetos da comunicação, entendidos como fatos de linguagem, e à psicanálise dos discursos midiáticos. Realiza pesquisa sobre as relações entre as literaturas de vanguarda e as infopoéticas e hipertextos contemporâneos e sobre a questão dos paradigmas da crítica, inclusive, da crítica cultural. Tem sete livros publicados, entre eles, “Sobre a Crítica Literária Brasileira no Último Meio Século” (Imago, 2003), “Céu Acima - Para um Tombeau de Haroldo de Campos” (Perspectiva 2005) e “Proust - A Violência Sutil do Riso” (Perspectiva 2007). Traduziu “Histórias de amor” e “No princípio era o amor”, de Julia Kristeva.



L.O. O que e a quê a palavra conduz?
L.T.M. Os humanistas antigos diziam que a palavra é vento. Quando circula pelos corredores de seu palácio, um livro na mão, murmurando entredentes "palavras, palavras, palavras", é nisso que Hamlet está pensando. E é ainda isso que ecoa em formulações decisivas dos mais exemplares poetas da modernidade, a exemplo daquela de Mallarmé – que está num texto só agora traduzido entre nós, com mais de um século de atraso, Crise de verso – segundo a qual as línguas são “imperfeitas porque plurais”. Reforçando a convicção dos poetas, todas as lingüísticas gerais do século XX, e junto com elas todas as semiologias e semióticas contemporâneas teorizaram o arbitrário do signo. Essa é uma questão que já está posta para nós desde o Crátilo de Platão, onde se discute se os nomes seriam mais que convenção. Bom....depois de tudo isso, como não dar razão aos que pensam que a literatura não deve fechar-se em dogmatismos e doutrinamentos, que ela não tem muito mais a fazer senão dar testemunho dessa fragilidade de seu instrumento, que ela não deve querer nos conduzir a parte alguma do sentido?

L.O. O que constrói um escritor?
L.T.M. Para quem vem como eu de uma formação francesa totalmente nouvelle critique – Roland Barthes, Julia Kristeva, Gérard Genette – com tudo que isso comporta de presunção de uma centralidade da linguagem e dos signos, a tentação é forte de responder, rapidamente, que o que constrói um escritor são as próprias escrituras. Não era Borges quem dizia que nada mais era que um leitor, e que agia como se nada mais fizesse que reescrever seus autores preferidos, chegando ao ponto de inventar um – Pierre Ménard – que refazia ipsis literis o Quixote no século XIX francês? Mas as coisas não são tão simples assim. Existe um mundo em Borges, junto com toda essa ironia e toda essa paródia, uma Buenos Aires pulsante, heróis e traidores, encontros fatais numa virada de esquina, brigas de faca... Acho que os contos entre ensaísticos e fantásticos de Borges, e a própria vida de Borges, que era um ser imaterial da biblioteca mas andava de balão, se casou velhíssimo e morreu em vilegiatura pela Europa, nos permite responder que o que constrói um escritor é tudo. Ele tem que ter um estilo e um mundo.

L.O. Como anda a crítica literária brasileira?
L.T.M. Eu estava relendo recentemente a Monografia da imprensa parisiense de Balzac, um livro deslumbrante, que deveria ser obrigatório em todos os cursos de jornalismo e em todas as cabeceiras dos jornalistas dignos desse nome, e percebi que o Balzac é atualíssimo. Como um naturalista cruel, ele divide os críticos em espécies, elas mesmas subdivididas em variedades. Temos aqui, entre outros, o crítico mundano, o crítico farsante, o crítico universitário e aquele que ele chama “o jovem crítico loiro”, um sujeito bem lançado nos salões e nas redações, que, bem por isso, vendeu a alma ao diabo, como Lucien de Rubempré, o herói jornalista e poeta de As ilusões perdidas. Diria que, com mais de um século de antecedência, Balzac viu tudo. Pois, excetuadas as poucas vozes realmente independentes que temos, e tudo aquilo que os poetas-editores estão fazendo acontecer na internet, onde florescem hoje revistas literárias de uma qualidade impressionante, a crítica literária brasileira vai mal, tanto intra muros universitários quanto extra muros universitários. Nas redações, porque tudo vai aí se tornando ralo, tudo vai confirmando a definição balzaquiana do jornalista como um “nadólogo” (um “rienologue”, do francês “rien”=nada). No mundo dos professores, porque, a julgar por todas revisões da literatura brasileira a que temos assistido, às guerras de guerrilha estética e muitas picuinhas que não acabam de se desenrolar diante de nós, não estamos longe de poder definir o crítico scholar como Balzac definia o crítico universitário: “ele examina sob o triplo ângulo das relações com a idéia, a execução e o estilo [....] e erra sempre”.

L.O. Como criticar com ética?
L.T.M. Reconhecendo que as palavras são vento, justamente!

L.O. Quais as principais dificuldades da crítica?
L.T.M. Para falarmos só do Brasil e só do Brasil de hoje, a falta total de espaço para a literatura e as artes nos jornais, a falta de fôlego dos críticos jornalistas, a transformação da crítica jornalística em box de serviço informativo, a dependência das editorias dos cadernos de cultura em relação ao main stream editorial e, falando agora da universidade, a hegemonia das sociologias da arte. Marxistas e adornianos, devemos aos críticos sociólogos estas dobradinhas com as quais até hoje estamos envolvidos: o nacional e o estrangeiro, o erudito e o popular, a vanguarda e o subdesenvolvimento... Graças a elas, falamos de tudo, menos das próprias artes e da própria literatura. Agora, não há só dificuldades. Embora seja uma no men`s land onde encontrar o melhor e o pior, a vida on line é hoje, como eu dizia, uma facilidade para a grande crítica, porque se pode aí pensar e escrever a bom preço e fora da sombra dos ancestrais.

L.O. Qual o seu papel (o da crítica), enfim?
L.T.M. Desde 2002, quando eu publiquei Sobre a crítica literária brasileira no último século, tem sido tentar mostrar que os lugares da crítica – universidade, jornais, institutos culturais, laboratórios artísticos em si –, os papéis da crítica – interpretar o sentido oculto das obras, desconstruir as idéias feitas sobre as obras, referir as obras à tradição, resenhar os novos, cancelar as barreiras do nacionalismo –, e os métodos críticos – marxismo, estruturalismo impressionismo, sociologismo – são vários e ainda podem se cruzar. É bom que seja assim, afinal, a literatura e as artes merecem ter mais que um só um entendimento, só uma definição, só uma função.

L.O. Traduzir é, de fato, sempre trair?
L.T.M. Não poderia não ser, embora, claro, traia melhor quem tem mais repertório, mais talento, é mais poliglota, mais poeta. Nesse terreno da tradução, que, para muitos, não se separa do terreno da criação, eu acho que tudo funciona como na literatura. Vive-se da própria falta. Os poetas, daquilo que Mallarmé – para voltar ao abismo das palavras – chamava de “o acaso da linguagem”; acrescentando que “a poesia remunera o acaso da linguagem”, e os tradutores, da traição.

L.O. O que é uma tradução que se possa considerar perto do perfeito?
L.T.M. Responder de modo absoluto seria um fechamento dogmático. Para alguns – e não uns quaisquer, os concretistas, que merecem respeito por tanto terem exercitado e pensado a tradução entre nós – traduzir é traduzir a forma. Para outros, que detestam, justamente, as traduções formalistas dos poetas concretos, traduzir é mais traduzir o conteúdo, uma filosofia, um espírito, algo que não é da ordem pura e simples das palavras, mas da transcendência. Pessoalmente, eu acho instigante quando os concretistas traduzem “spring” por “domingo”, porque em “domingo” temos a seqüência “ing” de “spring” e certa idéia primaveril... Mas independente de tudo isso, que nada mais é que teorização, acho que, na prática, uma tradução próxima do perfeito é necessariamente uma tradução de um bom maker, de um bom poeta.

L.O. Quem são os bons tradutores do país para você?
L.T.M. Queria dividir esta resposta em dois blocos. Primeiramente, acho que, num terreno desses, não há como fugir do peso imenso da escola de Haroldo e de Augusto de Campos, que até os inimigos da poesia concreta costumam respeitar como tradutores. Não se trata só de tradutores mas de civilizadores, porque nos deram e continuam nos dando em português (Augusto) tudo do patrimônio literário que, sem eles, não teríamos até hoje. Estamos falando, por exemplo, dos grandes simbolistas franceses, do Coup de dés de Mallarmé, dos poetas de língua alemã, dos poetas provençais, dos haikais japoneses... Em segundo lugar, independentemente da escola, tem gente brilhante traduzindo por toda parte do país. Cito alguns pontualmente, de modo absolutamente não exaustivo. O Cláudio Willer é um exímio tradutor – e aliás comentador – do Lautréamont. O Paulo Henriques Brito é um tremendo tradutor da Elisabeth Bishop. O Nelson Ascher traduz qualquer coisa virtuosisticamente. A Josely Vianna Baptista é excelente. Até aí, temos tradutores-poetas. Mas se nos voltarmos para os universitários, há ótimos tradutores do Francis Ponge, por exemplo, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como o professor Ignácio Antonio Neis.... Repito, isso não é nada exaustivo, é apenas o que me ocorre agora.

L.O. Como tem visto essa questão das fraudes cometidas por algumas editoras brasileiras contra traduções e tradutores?
L.T.M. De um lado, isso denota a qualidade dos editores envolvidos, falsos intelectuais cuja indignidade salta ainda mais à vista quando os comparamos com aqueles que fazem da tradução uma arte, sem fronteiras com a poesia. De outro lado, isso fala da maneira como tratamos aqui os tradutores, a começar pelo tipo de remuneração, que quase os isenta de trabalhar bem!

L.O. As universidades têm cumprido o seu papel cultural?
L.T.M. Para falar só do que eu conheço mais de perto – as letras, as comunicações, as humanidades – a resposta é não. Ainda mais no campo da crítica, onde, nos melhores lugares da universidade pública brasileira, tudo se passa como se a literatura tivesse por tarefa interpretar o país, sempre entendido como o quintal do capitalismo. Reina aí o esprit de corps, além disso, pois é muito em função do parti pris que se distribuem bolsas, se decidem concursos, se fazem carreiras... Mas eu assinalaria também este fato perturbador que certos maître à penser da Filosofia Política e da Ética, que antes não saíam da mídia, e que até mesmo se fizeram na mídia, refluem, como de repente, para a dignidade universitária, calando-se por completo, quando o PT delinqüe. Não que só haja o lado criticável do PT, mas esse lado existe, e a missão do intelectual deveria ser sempre falar mal do governo, como faz, aqui ao lado, na Argentina, a Beatriz Sarlo. Me impressiona também que de dentro da vida universitária mais sofisticada tenha saído recentemente alguém para sonhar alto, em público, com o esfolamento dos bandidos.

L.O. Como foi ter estudado com Roland Barthes e Julia Kristeva?
L.T.M. Sem ter a genialidade, o dom de escritura, a eternidade do Barthes, a Kristeva era, nos anos 70 e 80, quando eu fiz Mestrado e Doutorado em Paris, um modelo de universitária mulher, representava a elite do grupo Tel Quel, que é uma das mais importantes correntes críticas do século XX francês, e era ainda uma figura de estrangeira que pensava as questões de gênero, então em franca inauguração, e o problema da xenofobia, num país cheio de árabes. Eu aprendi muito com a búlgara em Paris que ela era, na verdade, mais sobre isso que sobre literatura, pois acho que a sua obra revela-se hoje bem datada, embora ela tenha coisas bonitas na bagagem, como Histórias de amor, que eu traduzi para o português, e O tempo sensível, sobre Proust. Já o Barthes... como dizer... é tudo!

L.O. A literatura brasileira está num bom caminho?
L.T.M. Acho que só poderemos começar a responder isso daqui a uns 40, 50 anos. Em cima do lance, nunca dá para dizer nada, tudo é risco. Mas arrisco um palpite: temos mais literatura brasileira em editoras pequenas e voltadas para a poesia e a tradução literária do que em editoras poderosas voltadas para a prosa e sustentadoras de nomes de sucesso.


 


 

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