Entrevista com Daniel Piza

por Laurence Bittencourt Leite

O jornalista e escritor Daniel Piza, 34, começou sua trajetória profissional em 1992 no Jornal “Folha de São Paulo”, como repórter e editor-assistente, isso até 1995. Ao receber o convite em 1995 da “Gazeta Mercantil” passou a ser editor do caderno cultural “Fim de Semana”, onde ficou até 2000. E desde maio de 2000 é editor-executivo e colunista do jornal O Estado de São Paulo. Já lançou onze livros.

 

LBL - Na introdução do seu livro “Jornalismo Cultural”, você diz que olhando historicamente o panorama do Jornalismo cultural brasileiro, é possível perceber que o mesmo já não é mais como antes e que grandes publicações e autores do passado tem hoje poucos equivalentes, havendo com isso uma perda de influência. No entanto, na mesma introdução, você afirma que “ironicamente as seções culturais dos grandes jornais continuam entre as páginas mais lidas e queridas dos jornais”. Não haveria uma contradição entre as afirmações? E que autores seriam esses com poucos equivalentes hoje?
DP - Não há uma contradição. As seções culturais continuam entre as mais queridas mesmo tendo perdido a alta qualidade média que tiveram algumas vezes no passado. Os leitores obviamente simpatizam com um caderno que fale de assuntos como livros, exposições, filmes e discos, e não a violência, a política e os índices econômicos das outras seções. Mas isso, sim, significa que é preciso servir melhor a esse leitor, dando a ele orientação rigorosa, prazer verbal e gráfico, formação crítica. Hoje não temos mais Otto Maria Carpeaux, Alvaro Lins, esse tipo de crítico literário enciclopédico que consegue imprimir tom ensaístico no jornal. Não temos crítico de teatro do porte de Décio de Almeida Prado, nem crítico de cinema do de Moniz Vianna. Etc., etc. Precisamos resgatar a grande crítica.

LBL - Ainda no livro “Jornalismo Cultural”, há uma frase sua afirmando que o “empobrecimento técnico do jornalismo cultural vem da banalização de seu alcance”. O que o você quis dizer com “banalização do seu alcance?”.
DP - Os próprios jornalistas culturais não vêem grande importância no que fazem. Aderiram ou ao comodismo (fazem a matéria pedida tal como esperada, batem o ponto e vão para casa) ou ao cinismo (para que caprichar ou tentar ser criativo se amanhã o jornal embrulha peixe?). Assim, não se aventuram em gêneros que desconhecem (o perfil e o ensaio, duas marcas históricas do jornalismo cultural, são mal praticados no Brasil), não fogem do tom burocrático ou impressionista, não fazem mais que a resenha como resumo adjetivado.

LBL - Você se considera um nostálgico em relação ao Jornalismo Cultural?
DP - Não, de jeito nenhum. Há gente boa e há espaços concretos para escapar da opressiva máquina do entretenimento. Os jornalistas culturais hoje são menos cultos e os veículos não querem muito saber de crítica, mas toda vez que se faz algo contra essa corrente, de maneira equilibrada e atraente, o público que interessa responde. Há mais de 300 eventos culturais por semana em São Paulo. Alguns, como a Mostra de Cinema e o Tim Festival, estão lotados desde o primeiro anúncio. Logo, há pessoas de algum bom gosto do lado de lá... E elas lêem os bons jornalistas culturais, pode ter certeza.

LBL - O que é mais difícil no Jornalismo Cultural: a reportagem, a crítica, a resenha ou a entrevista?
DP - Cada um tem seus desafios técnicos. A entrevista é mais simples, no sentido de que você vai se dar bem se chegar com boas perguntas, se estiver bem informado sobre o entrevistado, etc. Mas é este preparo cultural que está faltando! A reportagem mais trivial, como a apresentação de um evento, também é fácil. Mas justamente por isso precisa receber injeções de criatividade já no primeiro parágrafo. A crítica (ou a resenha, formato mais compacto e utilitário da crítica) é difícil, porque você precisa resumir uma obra de arte às vezes muito elaborada e sutil e ainda fundamentar sua percepção a respeito dela, em geral sem muitas linhas para isso. Mas muita gente a pratica como se fosse fácil...

LBL - Jornalismo cultural incomoda?
DP - Deveria. Mas não incomoda, em geral, no caso brasileiro, porque todo o mundo escreve a mesma coisa sobre os mesmos temas.

LBL - De um modo geral sempre houve certo debate no mundo do jornalismo, para saber se o Jornalismo cultural exigiria uma formação específica, ou se seria apenas uma questão de encontrar o bom repórter. Haveria uma linguagem específica dentro do Jornalismo Cultural? Qual a formação adequada para ser um bom jornalista cultural?
DP - Outro dia ouvi da editora cultural do El País que a maioria dos jornalistas de lá não fez jornalismo, mas outra escola e depois, em alguns casos, uma especialização em jornalismo (um “master”). Concordo. E acho que no jornalismo cultural é, obviamente, necessário ter uma cultura geral muito sólida. O lógico seria ter feito algo das ciências humanas (história ou letras ou filosofia), mas o ideal é que se tenha lido muito, a sós, por muitos anos.

LBL - Na sua opinião, em que o público de suplementos culturais está mais interessado: em entretenimento ou erudição, reportagem cultural ou crítica cultural? E mais: fazer Jornalismo Cultural seria escrever para o grande público ou para um público especializado?
DP - Há públicos de todo o tipo, desde o que lê uma resenha para saber do que o filme trata, para ver se o assunto interessa, até o que conhece bem a obra daquele cineasta. É preciso saber falar aos dois, ao interessado e ao iniciado. Não gosto de colocar o entretenimento de um lado e a erudição do outro. Shakespeare pode ser prazeroso, assim como Fred Astaire pode ser tema de tese de doutorado. O que é necessário é o jornalista saber se adaptar até certo ponto ao público-alvo do veículo. Robert Hughes pode ser mais extenso, citar mais e usar referências e termos mais sofisticados na New York Review of Books do que na Time. Mas é o mesmo Hughes que escreve em uma e outra.

LBL - Fale um pouco de sua trajetória dentro do jornalismo brasileiro, como você iniciou, quais suas influências, onde trabalhou e o que fez decidir ser jornalista?
DP - Desde os 13 anos leio e escrevo muito e, embora estudante de biológicas no Colégio Bandeirantes, desde os 16 sonhava em escrever para jornais. Mas acabei indo estudar Direito na USP. Detestei. Comecei a editar o jornal da faculdade e um amigo me disse: “Por que não manda seus textos para jornalistas que admira?” Mandei para Ruy Castro e Paulo Francis, duas das minhas admirações locais, e tive retorno. Comecei como colaborador de resenhas de livro no Caderno2 em 1991. Dois meses depois, me chamaram para trabalhar na redação. A OAB nunca viu minha fuça. Passei em seguida 3 anos na Folha, 4 anos e meio na Gazeta Mercantil e voltei ao Estadão em 2000. Sou um homem realizado, ou seja, converti em sustento o que sempre fiz por prazer.

LBL - De romance a roteiro de documentário, você tem “jogado nas onze” como se diz. O que dá mais prazer a Daniel Piza: o romancista, o crítico cultural, o escritor de perfis, o roteirista ou simplesmente o repórter?
DP - A crítica cultural é minha posição. Tenho mais projetos de livros de não-ficção – ensaios, reportagens e biografias ensaísticas – do que de contos, romances, etc. Fazer o roteiro de um documentário sobre São Paulo foi fascinante. Mas, assim como a ficção, é um gênero em que sou iniciante ainda. O maior prazer é justamente exercitar os diversos tipos de texto. Na minha coluna, por exemplo, posso misturar crônica, diálogo, resenha, nota de humor e aforismo num mesmo dia.

LBL - Qual a importância da crítica cultural para o Jornalismo e para as artes em geral?
DP - Para o jornalismo, é uma de suas áreas de maior identificação (como dissociar o Estadão do Caderno2?). Para as artes, é a enzima que acelera discussões, capta percepções, etc. Muito mais artistas se interessam pela crítica do que normalmente se pensa.

LBL - Depois de lançar “Waal. O Dicionário da Corte de Paulo Francis” uma organização com o melhor dos Diários da Corte, você agora escreveu um perfil sobre ele. Francis, de fato, tem tanta importância assim dentro do jornalismo brasileiro?
DP - Basta olhar os fatos. Ele foi influente como crítico de teatro e comentarista político, muito lido e discutido como polemista cultural, participou de publicações históricas (ou em momentos históricos) como Senhor, Correio da Manhã, Pasquim, Folha... E influenciou duas gerações de jornalistas. Difícil pensar em outro jornalista tão importante na segunda metade do século 20. Foi isso que quis entender no perfil que escrevi: como Paulo Francis se tornou Paulo Francis?

LBL - Aqui em Natal há vários fãs do Paulo Francis e você chegou a privar do convívio pessoal com ele. Como era Francis no convívio entre amigos?
DP - Como todos dizem, era gentil, generoso, fiel. Tinha suas esquisitices engraçadas, como não saber fazer conta e enxergar mal. E tinha crises de destempero; era irascível mesmo, mas isto nem todos os amigos viam. O melhor era como enchia a vida dos que conviviam com ele com histórias, “causos”, sempre muito engraçado e curioso.

LBL - Em seu mais novo livro “Perfis & Entrevistas”, você imaginou duas entrevistas com dois cânones da literatura mundiais já falecidos. Foi difícil “ser” Oscar Wilde e Fernando Pessoa? Por que a escolha desses dois autores?
DP - Porque me marcaram muito. No caso de Wilde, quis mostrar como seus admiradores atuais o interpretam mal em muitos aspectos. No caso de Pessoa, tive o trabalhão de confrontar as percepções de mundo de cada um de seus heterônimos e dele próprio, para mostrar a grandeza da criação desse gênio.

LBL - Como é um dia na vida do jornalista Daniel Piza?
DP - Para dar vazão à minha inquietude, sou organizado e tranqüilo. Trabalho nos livros e frilas de manhã, fico no jornal das 12h às 21h, de noite saio para cinema ou concerto ou fico em casa lendo e/ou vendo TV – documentários, telejornais, futebol, até um pouco de novela. Nos fins de semana, fico com minhas filhas a maior parte do tempo. Também jogo futebol e vou ao clube. Enfim, um cara muito ativo e simples.

LBL - Agora um pouco de política: como você vê o Brasil sob o governo Lula? Qual sua avaliação sobre esse governo até o momento, e em especial na área cultural?
DP - Acho que o governo Lula adotou uma política econômica ortodoxa para ganhar a eleição e depois percebeu que não podia fugir dela. Mas paga o preço maior das utopias do seu passado na incapacidade para administrar em especial os recursos para as áreas sociais. Um governo que se diz de esquerda não pode chegar ao poder sem um projeto viável para a educação brasileira, de nível desolador! Na área cultural também pouco fez. A Ancinav é uma tentativa de cercear o mercado das comunicações, dando força aos investidores nacionais, mas vivemos numa época em que filmes brasileiros de qualidade podem ser produzidos e distribuídos por empresas americanas. O PT ainda está nos anos 70.

LBL - Na sua opinião qual o papel do Estado na cultura? O que você pensa sobre essas leis de incentivo a cultura?
DP - Acho que o Estado tem papel como investidor direto e, mais importante, estimulador indireto. Uma política pública de cultura deveria ajudar a produção cultural a depender menos, proporcionalmente, do dinheiro que as estatais (BB, Caixa, BNDES, Petrobras) liberam, não raro por força de lobby. E as leis de incentivo têm o problema de que o contribuinte paga a conta, mas quem leva a fama é o suposto “mecenas”, que abateu o investimento em renúncia fiscal. Um mecanismo perverso que Gilberto Gil disse que queria mudar e não mudou.

LBL - Você tem acompanhado os suplementos culturais feitos no Nordeste? Como você acha que o Nordeste está em relação ao Brasil?
DP - Não me sinto capaz de opinar. Já li coisas boas e ruins, mas não tenho a visão do conjunto. Colaboro com a revista Continente Multicultural, de Recife, que em alguns aspectos é mais viva intelectualmente do que a Bravo, de São Paulo.

LBL – Ano a ano, se promove aqui em Natal a Bienal do Livro de Natal. Há interesse dos meios de comunicação dos grandes centros pelo que acontece no Nordeste em termos de arte, de cultura, lançamentos de livro, autores, ou as questões locais são sempre mais fortes, impedindo que se divulguem esses eventos?
DP - Acho que há interesse sim, apesar de os canais hoje estarem muitas vezes poluídos ou dispersos. Recentemente demos no Estadão uma página inteira para dois ficcionistas sergipanos, Antonio Carlos Vianna e Francisco Dantas. Que editoras como a Planeta e a Companhia das Letras e jornais como o Estadão partam atrás desses talentos é muito saudável. Quanto a eventos como a Bienal do Livro de Natal, o interesse do leitor de um jornalão do Rio ou SP evidentemente não é muito grande pela dificuldade de acesso. Mas é importante que pelo menos alguma matéria seja feita, de olho nas novidades regionais.

LBL - Por fim, quem são as “avis rara” hoje dentro do jornalismo brasileiro, na opinião de Daniel Piza?
DP - Há bons jornalistas culturais na ativa, como Sergio Augusto, Ruy Castro, João Máximo, Antonio Gonçalves Filho, Luiz Zanin Oricchio. Há colunistas polêmicos e muito lidos como Arnaldo Jabor e Diogo Mainardi. Há jovens como Michel Laub, Marcelo Rezende, Cassiano Elek Machado. E há textos bons em sites como www.nominimo.com.br e www.digestivocultural.com.br. Fora do jornalismo cultural, para mim o grande jornalista brasileiro, repórter de primeiríssima e agora historiador, é Elio Gaspari.

 

 

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