Crônicas

 

É doce morrer no mar...
(Yvette Maria Moura)

“É tão tarde, a manhã já vem. Todos dormem, a noite também. Só eu velo por você, meu bem. Dorme, anjo, o boi pega neném...”, cantarolei, inúmeras vezes, como a mais bela canção de ninar que eu já ouvi: uma filha de cada lado, o olhar lançado ao infinito, no vaivém da cadeira de balanço, fazia-as dormir.
Não foi na voz de minha mãe nem da irmã Ana, tampouco na rouquidão crônica de Maria, que eu a escutei pela primeira vez. Foi gravada por Roberto Carlos, em um vinil que eu não me lembro como me chegou às mãos, em meados dos anos oitenta, quando, adolescente, eu nem imaginava ainda que, um dia, viria a ser mãe de duas lindas quão adoráveis meninas.
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Frio
(Marcus Rocha)

Não me lembro de como estava o sol naquele dia já tão distante. Faz tempo demais e eu não me lembro. Devia haver sol, claro (releio isso agora e vejo o trocadilho), o sol se levanta todos os dias. Mas também se põe, e nem sei mais se era dia ou noite. Acho que era tarde, mais provável que fosse tarde. Fazia frio, e era um frio intenso que me envolvia completamente. Eu não sentia mais nada, nada além desse frio intenso. A sensação de solidão que esse frio me impunha era imensa...leia mais >>

   
 

O traficante de livros na palafita do Recife
(Samarone Lima)

Não sei o que há com o jornalismo em geral. As notícias ruins ocupam a maior parte do noticiário, as péssimas nunca saem da pauta. Os crimes, em particular, se tornam obsessão das mídias. Há uma regra elementar - quanto mais cruéis (e se envolverem crianças), ganham mais espaço, mais tempo, mais páginas. Talvez seja por isso meu afastamento paulatino da minha profissão original....leia mais >>

   
 

Baú de badulaques
(Yvette Maria Moura)

Depois que todos dormiram e o silêncio tomou conta da casa, eu fiquei por ali, ainda acordada, não sei por quanto tempo, escutando o barulho do mar revolto – as ondas quebrando na areia cintilante da praia –, enquanto os grilos faziam sua cantoria lá fora, escondidos pelos arbustos... leia mais>>

   
 

A Carta
(Samarone Lima)

Voltei de Cuba com uma pequena carta, escrita pelo meu amigo Maicon, endereçada à sua mãe, que mora na rua das Pernambucanas.

Maicon me falou muito de sua mãe, Maria do Socorro, um mulher simples, que trabalha na casa de uma família há muitos anos. Nas horas de folga, leu algumas cartas que ela o escreveu. Cartas muito simples, amorosas, de uma mulher modesta, orgulhosa de ter um filho estudando medicina em Cuba... leia mais>>

   
 

Chá das quatro com Drummond
(Elianne Abreu)

Drummond se aproximou de mim, não sei exatamente porquê depois da morte de Pedro Nava. Acho que foi porque eu fui muito amorosa com ele, fiz um cartão com um desenho bonito, caminhamos de mãos dadas por Ipanema...ele sofreu muito com a morte de Nava, não se conformava, dizia: "Por que fez aquilo?" Não sabíamos do drama que Nava vivia na época... leia mais>>

   
 

Poesia de dentro
(Florence Dravet)

Sonhos, insônias, às vezes sono sem lembranças. Desperto! Assalta-me o coração o mal-estar das seis da manhã. – Há quanto tempo não escrevo uma linha? – Fico na cama mais um pouco. Um pequeno estrondo. É o motor da velha geladeira que desliga, ouço melhor agora o fluxo dos carros que passam na avenida. Já? – E se neste instante, o mundo todo explodisse na minha cara? É. Pode-se imaginar esse tipo de coisa ao acordar. – O gato mia atrás da porta. – O gato: um bom motivo – Abro-lhe a casa e tomo banho e o gato entra e fica olhando. E enrolo-me na toalha e ponho a comida na tigela e a água do café e me visto e depois volto e me sento com a xícara na mão e o café quente; e olho a hora e ouço os carros. – Daqui a pouco estarei eu, lá na avenida – Lá vem o gato roçar minha perna, com o ronronar e o pêlo liso. Negro. Faço fumaça, ele se afasta. Negro. Vejo a vela no altar, acesa ontem. – Há quanto tempo não vejo as crianças? – Fico com elas na cabeça e me levanto sem sentir, pego a agenda e a pasta, a chave do carro, fecho o portão e me engajo na avenida...leia mais>>

   
   
   
 
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