| DANÇA,
FUTEBOL E “EL JUEGO DE PELOTA”
O
balé dos golfinhos roteadores no mar, a dança
dos aviões da Esquadrilha da Fumaça,
o balé dos peixes num aquário famoso...De
tantas expressões como essas, das que se
vêem repetidamente nas reportagens e matérias
de TV, o lugar- comum que acho mais honesto é
aquele... “o balé do futebol”.
Não gosto nem desgosto do futebol. Meu pai
até hoje não sabe o que deu errado,
em que momento de minha infância o gosto que
havia pelo esporte extraviou-se pelo portão
de saída do estádio quando eu era,
filha única até então, a sua
companheira nas tardes de calor em domingo de jogo
no Castelão...
Certa feita, estava em Santiago e queria muito visitar
o Museu Chileno de Arte Precolombino, era o derradeiro
dia na cidade e o museu, uma de suas maiores atrações,
não poderíamos perder. Naquela manhã
de tanto sol, o tempo corria ágil contra
a gente, como a bola corre no estádio. O
intuito era dar uma mirada de trezentos e sessenta
graus no museu, pois o ônibus para Buenos
Aires zarparia às onze e meia “en punto”
e os ponteiros em definitivo não estavam
ao nosso favor, não jogavam no nosso time.
Eu e Pedro corríamos a mais não poder,
o fôlego almejava aquele dos atletas do esporte
paixão-nacional. Chegamos ao museu e, após
já termos visto algumas obras do acervo,
entramos na sala da coleção mesoamericana
e vimos uma vitrine com as legendas: Ulamalixtli.
Como? Ou melhor, “el juego de pelota”,
o jogo de bola das civilizações pré-colombianas.
Atrás da vitrine estava a representação
em cerâmica de um “jugador de pelota”
da época. Pensamos: um ascendente do futebol!
Bem, digamos que esse jogo tratava-se de uma brincadeira
com intuitos outros, para além do divertimento
e da festividade do futebol que conhecemos hoje.
El "juego de pelota" tinha uma importância
política (não se distanciando tanto
assim do nosso futebol...) e religiosa muito profunda
para a civilização maia, razão
pela qual os espanhóis o proibiram, vendo-o
como uma atividade herege. Os campos onde se jogava
eram localizados em locais importantes das cidades.
Com uma antiguidade de mais de 2.500 anos, o jogo
foi uma atividade cerimonial e pública tradicional
dos povos Olmecas, Veracruz, Zapotecas, Maias e
Toltecas, compostos por diversos rituais ricos em
simbolismo. Tais jogos estavam relacionados com
os ciclos cósmicos, simbolizando um drama
cosmológico, e com a prática da agricultura.
Só um pequeno detalhe: os perdedores
das partidas eram decapitados. O sacrifício
dos jogadores assegurava a continuidade do ciclo
cósmico, do qual dependia a fertilidade agrícola.
Imaginei aquele jogo, acontecendo há 500
anos d.C. Uma das oferendas comuns nas tumbas de
Veracruz parecem réplicas em pedra da equipagem
dos jogadores, como tornozeleiras e cinturões,
originalmente feitas de madeira e algodão.
Fiquei pensando nessas metáforas do jogo
de bola para as culturas pré-colombianas
e nas inúmeras metáforas que a imaginação
de hoje pode dar ao futebol. As imagens metafóricas
de maneira geral perpassam nossas vidas, estão
tão imersas nelas que às vezes nem
damos por sua presença e uso. O poeta Carpinejar
reforça que o futebol também se apropria
dessas imagens, por exemplo, através dos
nomes dos lances futebolísticos: o chapéu,
o lençol, a bicicleta. “Caso contrário
os locutores não teriam mais garganta suficiente
para narrar os jogos”. O Ulamalixtli devia
ter também, talvez, suas imagens- metafóricas
para definir seus dribles. Metáforas que
a dança também tem: um pas-de-chat,
por exemplo, nome para um passo de balé que
algo se parece ao pulo de um gato. Ou o pas-de-cheval,
que parece um pouco com o passo de um cavalo. O
frevo também, com suas “tesouras”.
As quadrilhas de São João têm
seus “serrotes”, “trancelins”,
“túneis”, “maresias”.
Ou as imagens de outras artes do corpo, como a capoeira
e suas “meias-luas de compasso”... Às
vezes me convenço de que é difícil
negar um casamento da dança com o futebol.
Além dessa brincadeira com imagens que o
corpo risca no nada, no ar, e da forte simbologia
que ambos, o futebol e a dança, possuem para
as sociedades, mesmo as antiquíssimas, como
as pré-colombianas, penso que a dança
tem o vigor, a força e o ímpeto do
futebol. E o futebol tem o contratempo da dança,
a maleabilidade do baile... Um contratempo como
o movimento de um “olé”, daqueles
que o jogador dá no adversário minutos
antes do gol...
A manhã foi das melhores da viagem, e, mesmo
eu não gostando tanto assim de futebol, “el
jugador de pelota” deixou em mim um rastro
de seus dribles ancestrais, como um passo de dança.
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