Não é de bom tom confundir ator e personagem, mas a despedida, esta
semana, do senhor Paul Newman abre uma licença temporária para se
contrariar esse mandamento do mundo da representação artística. Todas
as informações sobre o Newman real que os jornais recuperaram e
republicaram por ocasião da morte do ator parecem validar uma certa –
e boa – impressão de que o ator e as pessoas que tão bem representou
são uma mesma entidade, sobre e em torno da vã vida real.
Paul Newman é uma dessas unanimidades tipo Chico Buarque de Holanda,
que as mulheres adoram e os homens, coitados, tentam tanto quanto
possível imitar. Conheço um cidadão que já disse à mulher, amiga
nossa: "Não admito traições em hipótese alguma. Ou melhor: só há uma
situação que eu poderia tentar entender. Era se você me traísse com
Chico Buarque." Por falar nisso, tempos atrás, quando Chico Buarque e
Marieta Severo anunciaram a separação, essa nossa amiga chegou para o
marido e preveniu: "Cuidado, viu? Que Chico Buarque anda solto por
aí..."
A anetoda, tão real quanto Chico Buarque e Paul Newman, é só para
validar a idéia dessa unanimidade meio casual – essa empatia que o
ator americano, assim como o cantor e compositor brasileiro, exala
seja qual for o personagem de que esteja investido. Pode ser aquele
cidadão alvo de uma denúncia muito suspeita em "Ausência de Malícia",
como pode ser o quase ancião que usa a idade avançada como salvo
conduto para dizer o que quer e agir como convém em "O Indomável".
Também pode ser o marido tenessewiliano de "Gata em teto de zinco
quente". E ainda pode ser até mesmo o chefão frio e violento que se
esconde por trás do porte daquele mafioso clássico de "Estrada para
Perdição". Nunca houve um capo como aquele – cruel, porém
estranhamente simpático em seu rosto de concha e sua expressão de
monsenhor do mal.
Deixei para o final a lembrança do marginal bom vivant de "Buth
Cassidy", aquele comentário humano que usava a paleta dos westerns
remotos para ilustrar a originalidade da contracultura do presente – o
tempo da ficção conversando com o tempo do momento em que tal ficção
era feita. Num filme ou no outro, é como se todos os personagens de
Paul Newman compusessem um amálgama que projetava uma imagem simpática
do próprio ator.
A imagem de um inconformista tão charmoso quanto discreto, de um
rebelde cioso da força de sua sutileza, de um baderneiro por natureza
tão perigoso quanto coerente. Uma bela imagem, o legado imaginário que
o senhor Paul Newman nos deixa.