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Uma
Iara irresistível, mas resistente
Este
livro de Florence Dravet (Rasgos de Brasil Inteiro- 1.
Iara/ Editora Casa das Musas, 2008) tem uma obra-irmã,
Boi Tema, de Rita Loureiro (Philobiblion / Editora da
Universidade de São Paulo, 1987), cujas 26 pinturas
também podem ser vistas como rasgos de um Brasil
interior (e, por interior, daí inteiro). De algum
modo, ambos os livros são irmãos em “criação”.
Como as imagens de Rita Loureiro, os poemas de Rasgos
de Brasil Inteiro – 1.Iara podem ser lidos, infatigavelmente,
várias vezes, a alimentar uma volúpia ou
um desvario de fruição e de interpretação.
A imagem – literalmente infantil – que me
vem é a de crianças que experimentam a vertigem
de brincar num “escorregador” de parquinho.
Em cada “descida”, um frio na barriga –
difícil de traduzir, mas tentador de reproduzir.
Com alegria, mal chegadas ao chão, as crianças
no parque correm para subir a escada do brinquedo, para
repetir tudo. Repetir não é a palavra exata,
pois se trata de uma redundância de outra ordem,
mais ampliadora que replicante.
Lembro-me de uma palavra francesa evocada por um ciberneticista
inglês, Gordon Pask, num contexto em que se referia
ao rapport entre as patas do cavalo e o terreno. Talvez
a relação entre as crianças e o escorregador,
e entre o leitor e esses 26 poemas marcados por certo
minimalismo de referências, possa ser pensada em
termos de um certo rapport, que em arte faz a gente gostar
mesmo sem saber dizer por quê.
O “minimalismo” a que me refiro diz respeito
àquela expectativa instintual do leitor por marcas
ou indícios já registrados no “mundo
existente”, uma âncora em que possa fundar
uma interpretação segura. Essas marcas são
poucas. A gente tem idéia, de cara, de que Iara
é uma espécie de sereia brasileira, mas
isso não ajuda muito...
Na leitura do livro de Florence Dravet, descortina-se
a existência de um mundo poético autônomo,
fundado numa liga do belo, do misterioso e do simbólico,
para lembrar três categorias caras a Eudoro de Souza.
Essa liga acolhe, contempla, compreende múltiplas
possibilidades de leitura – nestes Rasgos 1.Iara
(promessa de continuação) com a água
de Tales, a lanterna de Diógenes, o rio de Heráclito,
os símbolos do inefável, as marcas de uma
leitura feminista – , mas também resiste
à tagarelice.
Um pouco como Iara, esse livro dá uma prova de
força. Força poética. Como Corisco,
o cangaceiro, o sentido da poesia de Florence “não
se entrega, não”.
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