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Banalidade do Mal
Segundo
a canção, "está provado
que só é possível filosofar
em alemão". Lembrei do verso de Caetano
Veloso a propósito do filme "O leitor",
mais um exemplar cinematográfico a demonstrar
os danos que podem ser causados quando ocorre
um acidente bem no cruzamento cruel entre a História
com H maiúsculo e a vida privada com v
e p em caixa baixa. Como bem se sabe, "O
leitor" conta a história do adolescente
que tem um caso com uma mulher mais velha que,
ele vai descobrir mais tarde na pior das circunstâncias,
foi uma cruel guarda de campos de concentração
durante o nazismo. Lembrou da tese da "banalidade
do mal", da filósofa - alemã,
que foi viver nos EUA - Hannah Arendt? Eu também.
Lembrou de outro filme alemão ainda recente,
"Adeus, Lênin". Comigo também
aconteceu o mesmo.
Vamos
ao essencial: "O leitor" é um
filme pausadamente narrado em três atos
bem definidos. No primeiro, temos o encontro do
garoto de olhar quase angelical com a mulher que
tudo vê com olhos quase cerrados, de tão
duros (é o sempre eficiente olhar da atriz
Kate Winslet, que todo mundo lembra por causa
da heroína romântica do "Titanic",
o que é uma injustiça colossal,
porque em tudo o mais que fez é sempre
soberba). No segundo ato, dá-se a revelação
da verdadeira identidade dessa mulher e aquela
tal História com H maiúsculo passa
a protagonizar o filme, jogando sobre tudo suas
sombras incômodas, tirando de baixo dos
tapetes alemães a poeira da culpa coletiva
que a grande guerra escondeu e só mais
tarde, com a descoberta do holocausto e os julgamentos
de Nuremberg, contaminaram o ar com suspeitas
difusas sobre responsabilidades individuais e
coletivas. Neste estágio, parece que o
filme vai sucumbir à discussão social,
política e antropológica, relegando
o drama que lhe deu origem - a relação
sempre deslocada entre o garoto ingênuo
e a mulher mais velha e lacônica - para
algum lugar onde a vida pessoal não tem
importância alguma diante do drama coletivo.
Mas é um engano, porque a certa altura
vem o terceiro ato, quando se encerra o julgamento
da acusada e o filme aproveita para retormar -
com força inesperada para o espectador
que se desviou junto com a trama de sua matriz
original - o encontro singular entre o "garoto"
(agora, homem feito e às voltas com os
dilemas da Justiça e uma vida amorosa abalada
pelo seu relacionamento primeiro) e a "mulher"
(agora, um idosa prestes a deixar a prisão).
Além
das pausas visuais marcantes, de um certo silêncio
sempre oportuno e revelador, das interpretações
genuínas, do clima das várias épocas
que vai impregnando cada cena, contribui para
a qualidade do filme essa muito clara estrutura
em três atos que mostra, ao fim e ao cabo,
como sofre o ser humano que é atropelado
pelo trem da História da maneira menos
literal que a expressão sugere. O casal
protagonista de "O leitor" é
pisoteado, com atraso, pelo drama que marcou uma
geração inteira - mas não
o é no contexto emoldurado em que a guerra
e o holocausto se deram, e sim na arena não
demarcada da vida mais comezinha do período
de paz. Por isso mesmo, a dor é ainda maior.
Ninguém morre asfixiado num banheiro inundado
por gases letais, nenhum personagem aparece esquelético
com sinistros uniformes listrados. Mas o dano
que se dá por dentro do carrasco e de sua
vítima - carrasco e vítimas em circunstâncias
deslocadas, mas ainda assim o carrasco e sua vítima
que são a mulher e o garoto - é
tão visível e concreto quanto o
Portal de Brandemburgo.
Dito
isso, resta lembrar que o filme, em sua parte
mais política mas nem por isso menos pessoal,
confirma soberbamente aquela tese de Hannah Arendt,
a que a filósofa chegou enquanto acompanhava
o julgamento de Adolf Eichmann, um nazista de
quinta escalão que vivia clandestinamente
em Buenos Aires e, capturado por um comando israelense,
foi submetido a um dos julgamentos espetaculares
que se seguiram à tragédia da II
Guerra. No livro "Eichmann em Jerusalém",
que reúne os textos da vasta reportagem
escrita por Hannan Arend enquanto se dava o julgamento,
a filósofa mostra o quanto de banal, comum,
ordinário e quantos mais adjetivos sinônimos
houver havia na conduta do acusado - e reclamava,
com os brados que uma linguagem escrita de estilo
elegante consegue emitir, sobre o erro cometido
naquela abordagem que, contrariamente à
sua análise, pretendia fazer do réu
um vilão de castelo medieval. Para Hannah
Arendt, isso só dificultava o entendimento
verdadeiro do que levou uma nação
como a Alemanha a perpertrar tudo o que se fez
contra os judeus, ciganos e outros segmentos humanos
durante o nazismo. Isso só impedia que
se enxergasse algo muito mais grave - que o crime
dos nazistas, de primeiro, segundo ou último
escalão, era uma conduta que comprometia
a raça humana inteira, pelo simples fato
de que parte dela fora capaz de praticá-lo.
Era preciso ter coragem de abrir os olhos para
esse fantasma - e não apenas simplificar
tudo superlativizando o burocrático Eichmann
como encarnação do mal.
O
mal, sugeria a filósofa, é mais
banal do que parece à primeira vista -
é isso o que está no livro, de leitura
quase barroca graças ao manancial verbal
que a autora usa para demonstrar sua idéia
sobre a maldade e como ela opera em caráter
extraordinário, como se deu no caso do
holocausto. Quando você vê, no filme
"O leitor", Kate Winslet dizendo ao
juiz porque não poderia abrir as portas
de um igreja em chamas para salvar a vida de prisioneiras
judias presas lá dentro entende perfeitamente
o que Hannah Arendt quis dizer no livro "Eichmant
em Jerusalém".
Quanto
a "Adeus, Lênin", o parentesco
é de conteúdo, embora os gêneros
praticados sejam inversos. Neste filme, em que
uma mulher acorda de um coma de anos e não
pode ficar sabendo que o muro de Berlim caiu há
tempos, o registro é cômico. Mas
é a mesma História com H maiúsculo
interferindo na vidinha de todo dia com v minúsculo.
Apenas o que seria cômico em um filme torna-se
trágico em outro.
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