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Conto
de Natal (ou Canção do Mar)
Olhando
pela vidraça, vendo a neve pintar de branco
o escuro da rua, é
que me vem à lembrança, de repente,
coisas muito importantes que eu
esqueci de fazer... Esqueci de falar que ainda
sonho contigo e que acordo no meio da noite sentindo
a tua cabeça sobre o meu peito. Esqueci
de dizer que ainda
guardo o teu lado na cama, como se o teu corpo
se quedasse ali, momentaneamente adormecido, e
pudesse, a qualquer momento, me puxar para junto
de si.
Esqueci de dizer que ainda durmo tarde te esperando
chegar, no meio da
noite, como quem chega atrasado a um importante
compromisso. Esqueci
de dizer que o almoço ainda é a
minha refeição principal e que o
meu
coração dispara sempre, quando batem
à porta do vizinho, porque, por
um instante, penso que tu resolveste voltar para
me acompanhar à
mesa...
Esqueci de dizer que eu ainda me estendo no sofá
da sala, em manhãs de
domingo, e me esqueço das horas escutando
Dulce Pontes e a sua Canção
do Mar. Contar que isso me traz uma velha saudade,
um antigo incômodo:
uma nostalgia que me fazia, quase sempre, desejar
(não sei bem porque)
ficar bem longe de ti...
Não sei se era medo de que te fosses embora,
de verdade, ou se contido
desejo de me libertar, por isso, nunca o verbalizei.
Mas era um
sentimento estranho – uma mágoa ou
despeito – que nos apartava um do
outro definitivamente.
Eu já te disse que não tenho mágoa
de ti? Então! Também esqueci das
coisas ruins que nos aconteceram: esqueci dos
teus erros (mesmo os
mais grosseiros e premeditados!); esqueci das
traições, das mentiras,
das promessas que me fizeste e nunca chegaste
a cumprir...
Esqueci da tua ausência (sempre tão
presente!) nos momentos mais
importantes da minha vida. Esqueci que te esquecias
de tudo, lembra?
Até das coisas mais simples, como a data
do meu aniversário ou usar a
primeira pessoa do plural para se referir a ti
e a mim...
Mas eu não posso te julgar, eu sei. Porque
também esqueci de fazer
muitas coisas por nós também. Esqueci
de te contar (já te disse?) o
quanto gostava de conversar contigo antes de dormir...
Deitávamos lado
a lado – os meus dedos brincando com a tua
orelha, enquanto
descansavas a cabeça sobre o meu peito
– e falávamos sobre tudo,
embora muitas vezes nos esquecêssemos de
conversar sobre nós mesmos em
momentos assim.
Ah, esqueci de te dizer (quantas vezes!) que sonhava
envelhecer
contigo e recebermos, juntos, a visita dominical
dos nossos filhos na
casa com varanda que ainda iríamos adquirir
(quantos seriam?). E eu
acharia graça do teu jeito emotivo –
chorando por tudo – ao vermos
nascerem os nossos netos e os netos dos nossos
filhos...
Seria lindo acompanhar, contigo, as primeiras
passadas dos pequeninos,
as suas primeiras palavras e a primeira vez que
se dirigissem a nós,
como vovô e vovó...
Esqueci de fazer tanta coisa, querido, como pontuar
os nossos momentos
mais felizes! Deixei de falar sobre as coisas
mais bonitas que me
levaram a ti e sobre o que me fazia te admirar
de verdade. Guardei
pequenos comentários – tão
importantes! – dentro de mim. Esqueci de
dizer-te, por exemplo, o quanto era gostoso te
ver caminhando em minha
direção, ao voltar de viagem, e
te receber de braços abertos como uma
criança confiante e feliz.
Eu pulava em teus braços, abraçava
o teu tronco com as minhas pernas e
comemorávamos com sorrisos a alegria do
reencontro. E dávamos voltas e
voltas, abraçados, numa felicidade sem
fim...
Ah, que desencontro infeliz! Quanto desencanto!
Partiste sem sequer
olhar para trás: abriste a porta como quem
vai ver o movimento da rua
e eu nunca mais te vi voltando pra mim... E te
foste numa manhã de
domingo sem que eu percebesse.
Ah! Também esqueci de afirmar que eu te
queria, sim, bem juntinho de mim.
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