Conto

por Ivette Maria Moura *

Conto de Natal (ou Canção do Mar)

Olhando pela vidraça, vendo a neve pintar de branco o escuro da rua, é
que me vem à lembrança, de repente, coisas muito importantes que eu
esqueci de fazer... Esqueci de falar que ainda sonho contigo e que acordo no meio da noite sentindo a tua cabeça sobre o meu peito. Esqueci de dizer que ainda
guardo o teu lado na cama, como se o teu corpo se quedasse ali, momentaneamente adormecido, e pudesse, a qualquer momento, me puxar para junto de si.
Esqueci de dizer que ainda durmo tarde te esperando chegar, no meio da
noite, como quem chega atrasado a um importante compromisso. Esqueci
de dizer que o almoço ainda é a minha refeição principal e que o meu
coração dispara sempre, quando batem à porta do vizinho, porque, por
um instante, penso que tu resolveste voltar para me acompanhar à
mesa...

Esqueci de dizer que eu ainda me estendo no sofá da sala, em manhãs de
domingo, e me esqueço das horas escutando Dulce Pontes e a sua Canção
do Mar. Contar que isso me traz uma velha saudade, um antigo incômodo:
uma nostalgia que me fazia, quase sempre, desejar (não sei bem porque)
ficar bem longe de ti...

Não sei se era medo de que te fosses embora, de verdade, ou se contido
desejo de me libertar, por isso, nunca o verbalizei. Mas era um
sentimento estranho – uma mágoa ou despeito – que nos apartava um do
outro definitivamente.

Eu já te disse que não tenho mágoa de ti? Então! Também esqueci das
coisas ruins que nos aconteceram: esqueci dos teus erros (mesmo os
mais grosseiros e premeditados!); esqueci das traições, das mentiras,
das promessas que me fizeste e nunca chegaste a cumprir...

Esqueci da tua ausência (sempre tão presente!) nos momentos mais
importantes da minha vida. Esqueci que te esquecias de tudo, lembra?
Até das coisas mais simples, como a data do meu aniversário ou usar a
primeira pessoa do plural para se referir a ti e a mim...

Mas eu não posso te julgar, eu sei. Porque também esqueci de fazer
muitas coisas por nós também. Esqueci de te contar (já te disse?) o
quanto gostava de conversar contigo antes de dormir... Deitávamos lado
a lado – os meus dedos brincando com a tua orelha, enquanto
descansavas a cabeça sobre o meu peito – e falávamos sobre tudo,
embora muitas vezes nos esquecêssemos de conversar sobre nós mesmos em
momentos assim.

Ah, esqueci de te dizer (quantas vezes!) que sonhava envelhecer
contigo e recebermos, juntos, a visita dominical dos nossos filhos na
casa com varanda que ainda iríamos adquirir (quantos seriam?). E eu
acharia graça do teu jeito emotivo – chorando por tudo – ao vermos
nascerem os nossos netos e os netos dos nossos filhos...

Seria lindo acompanhar, contigo, as primeiras passadas dos pequeninos,
as suas primeiras palavras e a primeira vez que se dirigissem a nós,
como vovô e vovó...

Esqueci de fazer tanta coisa, querido, como pontuar os nossos momentos
mais felizes! Deixei de falar sobre as coisas mais bonitas que me
levaram a ti e sobre o que me fazia te admirar de verdade. Guardei
pequenos comentários – tão importantes! – dentro de mim. Esqueci de
dizer-te, por exemplo, o quanto era gostoso te ver caminhando em minha
direção, ao voltar de viagem, e te receber de braços abertos como uma
criança confiante e feliz.

Eu pulava em teus braços, abraçava o teu tronco com as minhas pernas e
comemorávamos com sorrisos a alegria do reencontro. E dávamos voltas e
voltas, abraçados, numa felicidade sem fim...
Ah, que desencontro infeliz! Quanto desencanto! Partiste sem sequer
olhar para trás: abriste a porta como quem vai ver o movimento da rua
e eu nunca mais te vi voltando pra mim... E te foste numa manhã de
domingo sem que eu percebesse.

Ah! Também esqueci de afirmar que eu te queria, sim, bem juntinho de mim.

 

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Escritora e jornalista

 
 

 

 
 
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