Dentro da lágrima uma pedra
Replantei o meu ninho
nos galhos mais altos,
para ver se encontrava
um coração.
Coloquei dentro do ninho
um sonho e dentro do sonho
uma esperança,
para ver se aninhava
o teu coração.
De nada adiantou.
Veio o lenhador
e pôs abaixo a árvore,
o ninho e a minha ilusão.
Tomei novamente o sonho nas mãos.
Dentro já não havia nenhuma paixão.
Tornei a replantar o meu ninho nos galhos mais altos,
para ver se encontrava nos cumes qualquer coração.
De nada adiantou.
Coloquei então dentro do ninho
uma lágrima e dentro da lágrima
uma pedra
para ver se calava de vez
qualquer sonho, esperança
ou coração.
A pureza e outros vícios
Quanto mais ele envelhecia, mais tentava ter olhos infantis.
Passava o dia a recitar Lorca: “Estou a buscar o sono das maçãs…” Tentava buscar também a atmosfera das tâmaras.
Com fervor, acreditava que o estado infantil era a saída para o coração do homem. Importava se o olho era tinto; se o amor era cru; se a palavra era alva; se a mordida era quente e se o saber era nu.
Se redizia:
Todo aquele que enxerga com o peito vê mais longe.
Quanto mais ele envelhecia, mais usava óculos infantis.
As mãos de Juvenal
Juvenal merece uma foto. Melhor: as mãos de Juvenal merecem uma foto. Por duas semanas seguidas, a lotérica em que trabalha, na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, teve dois bilhetes premiados na Mega-Sena. E ambos os bilhetes saíram das mãos de Juvenal. Agora o que vemos é a lotérica da Rodoviária cheia, todos os dias, uma fila só, uma fila longa. Todos querem fazer uma fézinha com Juvenal, o homem que tem as mãos de ouro.
Poeta e pedreiro
Cimenta a tua palavra com o aço do espírito.
Agradeço a Astronauta
Meus agradecimentos a Lucas Moreira Telles, o famoso Astronauta, que ajudou este blog voltar a funcionar regularmente. com seus arquivos e tudo.
Informe aos prezados leitores
Um hacker, sei-lá-eu-o-quê, deve ter entrado no meu sistema (ui!) e apagado todas as minhas mensagens, comprovando empiricamente a total Inutilidade da Poesia.
Podem ver que desapareceu um monte de informações aí do lado direito, assim como o arquivo todo, as páginas anteriores, foram todas parar no beléléu ou na Baixa-da-Égua que, descobrir recentemente, fica no Alecrim, o bairro em que nasci, em Natal, RN.
Não liguem para o fim cibernético dos contos, poemas e crônicas que venho escrevendo aqui. Tenho tudo guardado em cofres na Suiça.
Se foi o destino, as musas ou os tremores do nosso coração, o que fizeram despencar parte deste Diário Razão Poesia, deve ser p.q. estamos na ordem do dia. Um amigo me disse: “Tu fala tanto da ‘estética do insignificante’, que, pronto, um hacker quer sumir contigo”.
Este hacker tem total razão!
Só que essa estética não é minha, mas do Manoel de Barros.
Tudo em toda a parte está a tremer e a cair, é verdade. Minha amiga e afilhada, Kelly Sumi, escreveu dizendo: “As coisas tremem para que a gente olhe para elas”. É isso mesmo.
Pronto. Tá explicado! Eis o motivo de tanta tremedeira em nossos corações ultimamente!
Então, por favor, olhemos o Haiti.
O acendedor de lampiões
Estive a lembrar do acendedor de lampiões, do livro Pequeno Príncipe (1943), de Saint-Exúpery.
O Pequeno Príncipe vai até o planeta onde só mora o acendedor de lampiões, que acende a chama quando a noite chega e apaga ao amanhecer. Como os dias começam a passar mais rápidos, o acendedor tem mais trabalho, dorme menos. O Pequeno Príncipe acha a função do acendedor muito importante se comparada às funções dos outros moradores dos planetas que visitou.
No primeiro planeta ele visitou o rei, depois, noutro planeta, visitou o general, em seguida morava sozinho, em outro planeta, o vaidoso e, depois, o bêbado. “Finalmente”, diz o menino depois de encontrar o planeta onde mora o acendedor de lampiões, finalmente, um planeta onde alguém faz alguma coisa útil…
Viva o acendedor de lampiões! Antonio Porchia dizia: “Às vezes é preciso acender um fósforo, para iluminar as estrelas”.
Leito e foz
Descobrir o rio onde desemboca o coração.
Descobrir o coração que não busca as fronteiras, mas os caminhos que não têm fim.
Descobrir o coração que não tem domínio sobre os enganos, nem sobre o amor ou sobre a verdade.
Mas qual o coração capaz de não se enganar?
Descobrir o coração arretado que não se cansa de beber sentimentos diversos. O coração capaz de errar e tentar remediar o erro.
Descobrir o coração onde desemboca o coração.
Quando o homem passar
O inferno do divino passa pelo inferno do humano.
Nenhum homem na Terra é anjo o suficiente. Por mais que queira. Por mais que ache.
Nenhum homem sob o céu vale o que cospe a tempestade.
Para aprender a voar
Não ter tido bunda, nem peito, nem barriga, nem nenhum tipo de saliência que acentuasse a sua estatura, fazia com que ele se sentisse de uma retidão sem par.
Ter sido magro e fino, finíssimo, e estar abaixo do peso sempre foi uma vantagem em um mundo dominado pelas dietas. Sua magreza tinha muitas vantagens: além da intimidade com o amplo, passava na roleta do ônibus sem problemas, caminhava desaparecido na multidão e arranjava sempre um lugarzinho para sentar. O que lhe incomodava eram os apelidos: palito, piaba, sumido, fósforo, poste, paleta, caneta, canudo, graveto, pescoço, entre outros.
Era tão magro que, certa vez, foi derrubado na praia por uma rajada de vento. Ficou furioso.
Temendo ser ridicularizado, levantou-se do chão e começou a socar e a chutar o nada como se ali tivesse gente. O vento não revidou. Já o tinha nocauteado.
No dia seguinte, teve uma ideia nada inteligente. Procurou na montanha o lugar onde o vento soprava forte, perto do desfiladeiro. Amarrou um cordão de nylon na pedra mais forte e alta, depois atou com um nó cego a outra ponta do cordão na cintura, fechou os olhos, abriu os braços e se jogou dali.
Enquanto caia foi novamente atingido por uma rajada de vento em velocidade ascendente, que o fez dançar para cá e para lá, como se fosse pipa…
Não tardou e ele logo alcançou vôo. Subiu. Estava mais alto que a pedra, mais longe que a nuvem, mais infinito que o azul. Era a sua vingança.
Antes de se esborrachar, tinha finalmente dominado o nada!
