Pela estrada, vi.
Por uma vida as vi,
Poleiros de aves.

A caminho do ofício,
Desde o princípio
Dos primeiros entrelaces.

Hospedeira e parasita,
Antitéticas, aos gritos:
Uma, me solta; outra te abraço.

Hoje, tento melhor vê-las,
Indistintos novelos
Contra infinito sem nuvens.

Por uma vida as vi.
Elas, agora, me vêem
Ao fim do meu tempo, traço.

Entreolho azul contraluz
Índigo de efeito fátuo,
Distingo, ao alto, uma cruz.

Têmperas

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Venho, por meio desta pena, dia-a-dia,
Antes que esta manhã de apelo seja tarde,
Querer em redesenho o seu refil,
Pois no meu íntimo álbum de nuanças,
Você aos poucos se destila, lilás-sépia,
Em licores de outr'horas peripatéticas.

Quero sua atual iluminura,
Antes que o dia-a-dia nos regrida
Apenas ao que nos foi da vida,
Vôo de ave de asa curta,
Percorrendo infinita rota para o Nirvana.

Apareça, pode ser mesmo sem aviso,
Na fronteira, na faixa em que a minha retina divisa,
Entre o que já se destina ao orvalho,
Mas que em ânsias de coração vadio
Insiste em recobrir camadas de nitrato.

Revele-se no laboratório dos afetos
As novas cores do seu redivivo sorriso
De luzes que se aderem aos  tênues acetatos.

Travesseiro de estrelas 

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Há lugares aonde, de fato, não vou.
Quando lá apareço, na realidade,
Quem me representa é um fantasma,
Cheio de mimos e afetações.

E o pior é que ele tem licenças,
Liberdades para as quais não me ouso.
Ou, por vezes, presunçoso,
Arroga-se em arroubos, erudições.

Mas, ruim mesmo é quando bebe,
Sem minha autorização,
Acredita-se agradável, quer atenções.
Não gosto dessa performance de carente.

Ah! Mas bem que ele volta com estórias,
Relatos alegóricos, muito sentido figurado.
Aos poucos, apago-o, sou, de novo,
Ser e centro, copere sano, tudo em ordem.

O que nos falta, está sempre no presente.
Mas, a plenitude não mora no tempo,
Ainda que haja afetos marcantes...
Guardados, num reino do inesquecível!

Com que caprichos não se formam as recordações?
Em vão, buscar lógica nesse conjunto de thesaurus,
Os afetos têm vida própria, lembram-se quando querem.
Não é a isto que denominam memória?

Para sempre incompleta é a natureza do carinho.
Por vezes, dilúvio; por vezes, caminho.
Aqui, acolá, um colo; lacunas do que já foi perto,
Nichos mnêmicos, ardores de sangue, ainda.

Por isso, agora, tenho mais de mim recolhido.
Reclino-me, reverencio silêncios, divãs, conforto.
A vida, literalmente sorvida, em cômodos interiores,
Até que, hora dessas, impulso, volto aos arredores.

Imprecisões 

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Leitura alta,
Livro antigo,
Mais uma página e...
Distrai-me a semicircunferência impressa,
Um involuntário e desprezível acidente,
De qualquer forma, imperfeição,
Um resíduo humano intrometeu-se na técnica,
Perenizando-se na totalidade da edição,
Impondo-se aos olhos com destino fixo,
a provocar distrações,
a fabricar lapsos na busca do saber
(ou do prazer).

Terá vindo da redação?
Terá saído da cabeça do editor?
Não, o editor estaria longe.
Possivelmente, do revisor.
Bem, muito mais provável, da paginação.
Mais provável, ainda, dos retocadores de fotolitos.
Quase certeza, alguém da fotomecânica.
Mas, pensando bem, foi o operador da rotativa,
ajustava o imenso rolo de papel...

Canseiras de detetive.

E os outros leitores?
Ter-se-ão atentado para tão insignificante detalhe,
Em suas anestesias de sofás?


Impressões de um fio de cabelo

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Trinados.

O dia vai amanhecer.
Daqui a pouco, diante do espelho, mais um fio alvo.

Há muito, eles vêm se juntando.
Um dia, não haverá mais dia.
E eles serão todos iguais,
harmônicos,
Como num trigal ao luar.

Alcançarei, finalmente, a honradez prateada?

Acerca da teoria de que os cabelos são cronômetros

 
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